Astrónomos descobrem buraco negro mais próximo da Terra
06.05.2020 às 12h56
Imagem artística mostra o sistema estelar triplo HR 6819, composto por uma estrela interior (órbita azul) e um buraco negro (órbita vermelha) e uma estrela exterior numa órbita mais alargada (também azul)
L.CALÇADA/ESO
Pertence à nossa galáxia, fica a “apenas” 1000 anos-luz de distância do Sistema Solar e é acompanhado por duas estrelas visíveis a olho nu no Hemisfério Sul
Uma equipa de astrónomos do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização a que Portugal pertence, acaba de descobrir um buraco negro a "apenas" 1000 anos-luz da Terra, ou seja, é o mais próximo do Sistema Solar até agora encontrado. O buraco negro está localizado na constelação do Telescópio e pertence a um sistema triplo - designado HR 6819 - porque é acompanhado por duas estrelas, que são visíveis a olho nu, podendo ser observadas a partir do Hemisfério Sul numa noite de Lua Nova e céu limpo.
Os astrónomos fizeram a descoberta ao observarem estas estrelas através do telescópio MPG/ESO no Observatório de La Silla, no Deserto de Atacama, no Chile. E segundo um comunicado do ESO, consideram que muitos outros buracos negros semelhantes a este deverão ser encontrados no futuro, o que significa que este sistema "pode ser apenas a ponta de um icebergue".
As observações da equipa do ESO foram realizadas no âmbito de um estudo sobre sistemas estelares duplos, muito comuns na nossa galáxia, a Via Láctea. Mas quando analisaram estas observações, feitas com a ajuda do espectrógrafo FEROS montado no telescópio que usaram, concluíram que havia um terceiro objeto invisível no sistema HR 6819 até então desconhecido, um buraco negro à volta do qual orbitava uma das estrelas, realizando uma órbita completa em 40 dias. O espectrógrafo é um instrumento que dispersa a luz de um objeto nos diferentes comprimentos de onda, para que possa ser analisado e registado em fotografia.
"Um objeto invisível com pelo menos quatro vezes a massa do Sol só pode ser um buraco negro", constata Thomas Rivinius, cientista do ESO que trabalha em Santiago do Chile e liderou o estudo sobre o HR 6819, publicado nesta quarta-feira na revista científica "Astronomy & Astrophysics". O buraco negro escondido neste sistema estelar é um dos primeiros a ser descoberto que não interage de forma violenta com o meio que o circunda, ou seja, é mesmo negro. Em todo o caso, os astrónomos conseguiram detetar a sua presença e calcular a sua massa de foram indireta, ao estudarem a órbita da estrela mais próxima.
Novas pistas para fazer mais descobertas
Já foram descobertos 24 buracos negros na Via Láctea e quase todos têm uma interação violenta com o meio envolvente, manifestada através de fortes emissões de raios X. A descoberta de um objeto deste tipo invisível no sistema HR 6819 vai certamente fornecer pistas sobre onde poderão estar escondidos muitos outros na nossa galáxia. "Devem existir centenas de milhões de buracos negros e nós só conhecemos alguns, mas saber o que procurar dá-nos agora uma melhor oportunidade de os encontrar", adianta Thomas Rivinius.
Assim, os astrónomos acreditam que esta descoberta pode ajudar já a compreender um segundo sistema estelar. ”Pensamos que outro sistema, chamado LB-1, possa também ser um sistema triplo deste tipo, apesar de necessitarmos de mais observações para ter a certeza,” afirma Marianne Heida, investigadora alemã do ESO e coautora do artigo publicado na revista "Astronomy & Astrophysics" . ”O LB-1 encontra-se um pouco mais afastado da Terra mas ainda está bastante próximo em termos astronómicos, o que significa que provavelmente existem muitos destes sistemas". Encontrá-los e estudá-los "dá-nos a oportunidade de aprender bastante sobre a formação e evolução das estrelas raras que começam as suas vidas com mais de cerca de oito vezes a massa do Sol e terminam as suas vidas numa explosão de supernova, deixando como resto um buraco negro”, sublinha a cientista alemã.
As descobertas de sistemas estelares triplos com um par mais interno e uma estrela distante poderão também fornecer pistas sobre as fusões cósmicas violentas que libertam ondas gravitacionais suficientemente fortes para serem detetadas na Terra. Há astrónomos que acreditam que estas fusões cósmicas podem acontecer em sistemas semelhantes ao HR 6819 ou ao LB-1, mas onde o par interior é constituído por dois buracos negros ou um buraco negro e um estrela de neutrões, isto é, o núcleo de uma grande estrela com 10 a 29 massas solares que entrou em colapso.