Presidenciais 2021

Quem escolhe o Presidente: os eleitores ou os abstencionistas?

As eleições presidenciais de 1986 “dividiram o país” entre Freitas do Amaral e Mário Soares

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Foi em 1986 que se bateram recordes de participação em eleições presidenciais. Então, foram precisas duas voltas para eleger Mário Soares. Agora, é a abstenção que pode forçar uma segunda volta.

23 janeiro 2021 16:56

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Nas presidenciais de 1986 não havia vencedor anunciado, mas opções de escolha para o sucessor de Ramalho Eanes não faltavam: Diogo Freitas do Amaral corria apoiado por PSD e CDS; Mário Soares com o apoio do PS; Maria de Lurdes Pintassilgo e Francisco Salgado Zenha, históricos socialistas, apresentavam-se ela independente e ele apoiado pelo PRD e, depois da desistência de Angelo Veloso, PCP. A eleição revelar-se-ia histórica. Primeiro por ter sido a única presidencial que precisou de uma segunda volta, depois pelo número de eleitores que se abeirou das urnas de voto: 5 935 294, um recorde até hoje em vigor.

Em véspera das décimas eleições presidenciais do país e com uma abstenção recorde no horizonte, um dado pode surpreender. Desde 1980, ano das segundas eleições presidenciais, que a subida da abstenção tem sido constante. No entanto, o número deve-se mais ao aumento dos eleitores registados do que ao afastamento dos portugueses da política. Dois exemplos: em 1976, votaram 4 885 624 portugueses, tendo ficado em casa 1 591 860. Quatro anos depois, abstenção mais baixa da história – 1 090 548 abstencionistas – mas mais um milhão de eleitores (5 831 369).

VOTANTES EM ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS


Desde então, só em 1996 e 2006, respetivamente as primeiras vitórias de Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, a abstenção desceu, mas sempre em valores bem abaixo dos registados nas presidenciais mais recentes. No dia em que se votou para o segundo mandato de Cavaco Silva já foram 5 164 500 os portugueses a ficar em casa e mesmo na hora de abrir as portas do Palácio de Belém a Marcelo Rebelo de Sousa o número dos abstencionistas só marginalmente desceu: 5 000 819.

EVOLUÇÃO DA ABSTENÇÃO


Em 1976 não chegavam a 6,5 milhões os portugueses registados para votar. Nas últimas presidenciais o número já era próximo dos dez milhões. E quantos portugueses a mais foram às urnas? Poucos: 4 740 558. Agora, com a pandemia fora de controlo, vencedor anunciado e sem uma alternativa aglutinadora e até a previsão de mau tempo para o dia da eleição, pode ser a abstenção a baralhar as contas e forçar uma segunda volta. Em 1986 a história foi bem diferente. Freitas do Amaral até venceu a primeira volta confortavelmente (46,3%), mas no segundo round Álvaro Cunhal entrou em campo e com duas das suas mais célebres frases - “Se for preciso tapem a cara [de Soares] com uma mão e votem com a outra” - arregimentou os comunistas para “engolir um sapo” e eleger um socialista. Nessa altura, Soares transformou 25,4% em 51,18%. Agora, dificilmente se baterão recordes, dos positivos pelo menos.