Opinião

Chegar a Fátima a pé

7 maio 2021 9:00

Cada vida é um lugar sagrado que mesmo a oração mais simples revela, exprime e confirma

7 maio 2021 9:00

Há outros modos de chegar a Fátima, mas nenhum é tão íntimo como quando se chega a pé. Os peregrinos descobrem nos longos quilómetros de estrada, por atalhos e estradas secundárias, que Fátima começa muito antes de Fátima. Fátima começa numa sede que, de repente, assalta a nossa vida e que a princípio, talvez, nem consigamos bem definir. Numa inquietação que não é por isto ou por aquilo, mas que detetamos, com surpresa, em nós próprios. Num desassossego que nos mói devagarinho e que aparentemente não se justifica, pois à superfície tudo se diria conforme e certo. Fátima começa a muitas léguas de profundidade, no mistério de cada coração. Começa, por exemplo, nesse desejo de espaço e de amplidão que os nossos quotidianos férreos não consentem; nessa necessidade que brota não sabemos donde, mas que depois se torna inadiável, de um encontro real com o silêncio; de provar aquela liberdade face às coisas que os grandes caminhantes, no seu estilo frugal, escolhem; de nos tornarmos disponíveis para uma experiência espiritual sem a qual, compreendemos então, a vida permanece rasa, imprecisa e incompleta. Não tenho dúvidas que é sempre uma procura de verdade que faz sair das suas casas os peregrinos e os leva a atravessar os baldios, descobrindo, nesse movimento endereçado a um centro, a possibilidade de realizar uma viagem de reconciliação e de renascimento.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.