Opinião

Milagres de todos os dias

23 Abril 2021 9:00

Por um estranho automatismo, nunca suficientemente criticado, damo-nos mais facilmente conta do mal do que do bem

23 Abril 2021 9:00

Penso nessa frase que G. E. Lessing escreveu: “O maior dos milagres é que os milagres verdadeiros nos apareçam como banais ocorrências de todos os dias.” De facto, precisaríamos de uma escola do olhar que nos ajudasse a compreender a natureza do que acontece e nos escapa. Precisaríamos de aprender a colher o sentido daquilo que efetivamente se joga diante dos nossos olhos, tanto no real que nos é distante como naquele que nos está mais próximo e se aloja, inclusive, dentro de nós. Por um estranho automatismo, nunca suficientemente criticado, damo-nos mais facilmente conta do mal do que do bem. O mal salta-nos à vista e como que nos obsidia. A ele reservamos a condição de coisa extraordinária: uma peça que se solta e se destaca, um elemento inesperado que se manifesta, uma contrariedade que emerge, um problema no qual imediatamente nos concentramos. Não nos apercebemos logo, mas à custa de nos focarmos na parcela de negatividade cria-se uma distorção do nosso olhar, já que perdemos a capacidade de considerar a vida na sua inteireza. E tal ocorre, em grande medida, por julgarmos ainda o bem uma banalidade; um pressuposto que nos é absolutamente devido e que, por isso, nem nos sentimos no dever de agradecer; um mero resultado fisiológico da existência ao qual não reconhecemos qualquer intencionalidade. Não admira que os grandes milagres nos passem ao lado como banais ocorrências para as quais reservamos apenas olhos sonolentos.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.