Já não aguento isto, disse-me. Só me apetece gritar. Pensei contestar. Já tentei. Só nos filmes é que funciona. Fi-lo há muito tempo isso de ir berrar até os pulmões não aguentarem. A ver se desanuviava. Fui até à praia em dia de mau tempo, assegurei-me de que não havia ninguém num raio de quilómetros enchi uns pulmões de ar e deixei sair o som pela garganta e cordas vocais com todas as forças. Mas não só saiu uma coisa meio grasnada como morreu com uma brevidade inusitada, esbateu no som das ondas e levado pelo vento. E contra as minhas ordens passou pelo crivo moral e senti-me um perfeito idiota. Em vez de alívio fiquei a sentir-me um palonço. Pisguei-me arrependido. A experiência do cinematográfico grito libertador na natureza tinha sido um falhanço. Tenho gritos épicos na minha vida. Há poucos anos, após a mota cair-me sobre a perna e torcer o perónio até à fratura. Foi um grito engolido. Como se o som, em vez de sair fosse empurrado para dentro por um murro cujo punho se me enfiou até ao estômago. Ou outro, há mais de 20 anos, no meio de um choque em cadeia, daqueles vulgares na autoestrada de Cascais, nas manhãs de chuva. O da frente bateu e cinco ou seis enfaixavam-se nas traseiras uns dos outros. Mas nos microssegundos que antecederam a pancada lembro do grito de terror que me saiu sem ter pedido. Eis o detalhe. Terá sido de boca aberta. Ao bater o airbag explodiu como era suposto e o pó que tem lá dentro para que o plástico não se colasse foi projetado para a minha boca. Andei dois dias a tossir airbag. Mas foi um grito polifónico. Não aquela coisa medieval de cerco.
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