Opinião

Os mestres do inútil

16 Abril 2021 9:00

Se não organizamos no campo do inútil a construção dos diversos saberes que nos servem, a verdade é que sem ele não transitaremos para a sabedoria

16 Abril 2021 9:00

Um dos equívocos, dos quais mais penoso é nos libertarmos, reside na conceção de útil e de inútil. Declaramos apressadamente útil tudo que o que se mensura em dinheiro e produtividade, em efeito imediato, em promoção ou retorno visível. Associamos o útil à resolução das necessidades materiais e rodeamo-lo, assim, daquele prestígio próprio das ações indispensáveis. Enquanto que desclassificamos o inútil vendo nele um esbanjamento, uma excentricidade, quando não um desperdício. Assumimos o útil como um dever. Ao inútil concedemos um estatuto eventual, entendido como uma espécie de resto, em relação ao qual não sentimos o apelo e a pressão social de desenvolvimento ou transmissão. E contudo, pensando bem, se do lado do inútil não estarão os deveres, está, porém, algo igualmente precioso: a maturação profunda do que somos. Se não alinhamos da parte do inútil os afazeres que garantem a nossa sobrevivência, podemos, contudo, colocar aí a experiência interior decisiva que representa encarar a vida e a morte, a memória e o desejo, a solidão e a alegria. Se não organizamos no campo do inútil a construção dos diversos saberes que nos servem, a verdade é que sem ele não transitaremos para a sabedoria. Como recorda um poema de Pedro Tamen, “o caracol conhece pouco mundo,/ mas é colado a ele que o conhece”. O inútil, que tem a forma de aéreo assobio, cola-nos diretamente ao mistério da vida e dá-nos um tipo de conhecimento que, de outro modo, não alcançaríamos.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.