Opinião

Calígula e a geração ‘woke’

1 Abril 2021 9:00

Os excessos da “cultura cancelamento” não podem ser deixados à extrema-direita

1 Abril 2021 9:00

Um indivíduo pode ver a sua reputação restaurada. Não toda. Neste caso estava mesmo na lama. Mas é um sinal de esperança — quem sabe — para quem se sente injustiçado por difamações e intriga. Calígula, imperador de Roma, poderá não ter sido tão maléfico como o pintaram. É verdade que bastaram quatro anos para a guarda pretoriana o despedaçar; e que o sucessor, o seu tio Cláudio, tentou apagar a sua memória fundindo as moedas com a sua efígie e decapitou as estátuas que o representavam. Não é bom sinal. Calígula teria os seus defeitos. É bom que se admita. Mas não seria o depravado louco que a historiografia retratou. Numa obra agora publicada, “Calígula: The Mad Emperor of Rome”, o historiador Stephen Dando-Collins garante que algumas das acusações são falsas. Nem transformou o palácio num bordel ou foi para a cama com as irmãs, nem sequer nomeou o seu cavalo favorito cônsul, embora tenha ameaçado fazê-lo para humilhar o Senado. Cometeu atrocidades terríveis. Mas nisso não diferiu de outros imperadores. E poderá ter sido bipolar. E foi inapto como imperador. Terá sido vítima dos abusos sexuais do tio-avô Tibério, do ódio do Senado e do desprezo de Cláudio. Todos se uniram para destruir a reputação do jovem imperador, que afinal só matava e assassinava cruelmente como outro qualquer. Eis o que me interessa: a ideia que dois mil anos depois Calígula possa ser descancelado. Teria graça.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.