Bom dia este é o seu Expresso Curto
Subscreva o Expresso Curto
Ao subscrever, a informação partilhada será usada de acordo com a Política de Privacidade
Sugira o Expresso Curto a um/a amigo/a
Um passo atrás para seguir em frente
Olhos e ouvidos postos no Conselho de Ministros que, à hora a que este Curto chega às caixas de correio, está prestes a começar no Palácio da Ajuda, em Lisboa. O Governo vai renovar a situação de calamidade e aprovar as regras por que todos nos vamos reger a partir de segunda-feira, na terceira fase de desconfinamento, nomeadamente as respeitantes ao regresso do pré-escolar e à reabertura dos ATL ou ao regime de teletrabalho (que deixa de ser obrigatório). Ontem, na sétima reunião com epidemiologistas na sede do Infarmed, o Presidente da República manifestou alguma preocupação com os números de novos casos na Grande Lisboa; o primeiro-ministro, falando logo a seguir, mostrou estar atento às palavras de Marcelo e admitiu que, se for necessário, adia a abertura dos centros comerciais na capital do país (prevista para dia 1). O Público já dá a "marcha atrás" por adquirida. A equipa de Política do Expresso assina este texto onde lhe explica tudo o que está em causa mas, resumidamente, é isto: a taxa de transmissão da doença na região de Lisboa e do Vale do Tejo está acima da média nacional e, pior, o comportamento do vírus não está a acompanhar a dinâmica do resto do país. Razões para isto acontecer: situações de pobreza, habitação muito degradada e péssimas condições de funcionamento de bares, cafés e restaurantes (alguns foram fechados ontem no bairro da Jamaica, no Seixal).
De acordo com a análise de dados do primeiro mês de epidemia, num estudo da Escola Superior de Saúde Pública divulgado ontem, as medidas de confinamento adotadas contribuíram para que, durante os primeiros quinze dias de abril, Portugal registasse menos 146 mortes e 519 internamentos em unidades de cuidados intensivos. Em todo o país, ontem, houve 304 novos casos (o maior aumento dos últimos 20 dias) e o número de internados aumentou pela primeira vez em nove dias. Que a marcha-atrás, se for necessária, não envergonhe ninguém. Na Coreia do Sul, apresentada desde o início como um país exemplar no controle da pandemia, voltaram a fechar-se parques, museus e galerias de arte, perante o ressurgimento de um grande número de casos.
OUTRAS NOTÍCIAS, CÁ DENTRO...
Afinal vai haver Feira do Livro em Lisboa e no Porto, foi anunciado ontem. Será de 27 de agosto (28, no caso do Porto) a 13 de setembro. Também vai haver Festival de Teatro em Almada, de 3 a 26 de julho. Festa do Avante já se saberia que só não haveria por uma circunstância excecional de que o PCP parecia nem querer ouvir falar mas ontem Jerónimo de Sousa garantiu que o partido está atento à evolução da pandemia e admitiu mesmo que poderão cancelar o evento se o problema se agravar.
Os líderes das principais instituições bancárias nacionais estiveram esta noite na SIC Notícias e não deram boas notícias: segundo eles, o pior da crise provocada pela pandemia ainda pode estar para vir. João Pedro Oliveira e Costa (BPI), António Ramalho (Novo Banco), Paulo Macedo (CGD) e Miguel Maya (BCP) responderam ainda ao primeiro-ministro - que, na semana passada, no debate quinzenal, dissera não saber de que estavam à espera os bancos para fazer chegar os apoios à economia garantidos pelas linhas de crédito aprovadas pelo Governo - rejeitando as críticas de que estão a reter o dinheiro solicitado pelas empresas e assegurando que a banca está a cumprir o seu papel.
Acreditemos que sim. Acreditemos também que o ambicioso plano de recuperação da economia proposto esta semana pela Comissão Europeia (e que, a ser aprovado, faria chegar a Portugal 26 mil milhões de fundos - 15 mil dos quais a fundo perdido) vai conseguir vencer as resistências de Áustria, Holanda, Dinamarca e Suécia. A comissária portuguesa Elisa Ferreira dá esta manhã uma entrevista à TSF onde que "se a proposta da Comissão for um nado-morto, estamos em maus lençóis". Parece "bom demais para ser verdade", escreve por sua vez o Pedro Santos Guerreiro, num artigo de opinião com um título gráfico: "Portugal, cai-nos dinheiro no céu".
Para contrastar, há dinheiro que pode sumir para o céu. Falamos do futuro da TAP, que perdeu mais de dois milhões de passageiros à conta da paragem destes meses e já anunciou despedimentos. A companhia vive uma grave situação financeira e a intervenção do Estado está em cima da mesa. O tema domina a conversa do podcast de economia do Expresso "Money, Money, Money" e merece a reflexão do Daniel Oliveira. Numa entrevista ao Porto Canal, o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, diz que não podem ser “todos a pagar” umaTAP transformada em “Lisboa airlines”.
... E LÁ FORA
O que fez enquanto esteve em confinamento? Daniel Innerarity escreveu um livro. Está à venda desde dia 27 e tem o sugestivo nome de "Pandemocracia". Sim, é exatamente isso: procura explicar como as democracias geriram a pandemia. Numa entrevista muito interessante que deu esta quinta-feira ao diário espanhol El Mundo, o filósofo espanhol resume o que andou a pensar nestes meses: que as nossas sociedades não estão bem preparadas para enfrentar o inesperado; que gerem muito bem as tricas políticas quotidianas mas têm pouquíssimos instrumentos de alerta, prevenção e preparação para crises futuras; que o seu grande receio é que passada a pandemia voltemos ao habitual, esquecendo o subtil - por mais ameaçador que ele seja - para nos ocuparmos exclusivamente do ruidoso: "se tivesse de apostar um jantar", confessa, "diria que vamos aprender [com esta crise], mas pouco e tarde".
Sobre Espanha, em concreto, Innerarity vê como "um grande problema" o facto de o elemento competitivo da política ter invadido todo o processo político e anulado a sua dimensão cooperativa, muito mais necessária em alturas como esta. Nem de propósito, a entrevista saiu um dia depois de um confronto aceso nas Cortes entre o vice-presidente do Governo espanhol, Pablo Iglesias, e a deputada do PP, Cayetana Álvarez de Toledo (só para resumir, ele tratou-a por "marquesa", por ter herdado o título; ela devolveu-lhe o "mimo", chamando-lhe "filho de um terrorista"). O "elevado nível" do debate entre o número dois de Pedro Sanchez e os seus adversários de direita prosseguiu ontem com Iglesias a acusar o Vox de querer perpetrar um golpe de Estado mas não ter coragem - e levando Iván Espinosa de los Monteros, porta-voz do Vox, a abandonar a sala.
Em Inglaterra, ainda há réplicas do escândalo com o conselheiro político de Boris Johnson, Dominic Cummings, que, em março, fez uma viagem de carro de 400km, violando as regras de confinamento em vigor, algo que o próprio negou e que o primeiro-ministro desvalorizou, mas que foi admitido pela polícia, de acordo com um relatório divulgado ontem na imprensa britânica. Os trabalhistas acusam Cummings de violar as leis que ele próprio ajudou a redigir para o país e o The Guardian (que, com o Daily Mirror, conduziu a investigação) não tem poupado nas críticas a Johnson por este manter Cummings em funções, acusando-o de estar a colocar as suas prioridades pessoais acima dos interesses do país. A relação entre os dois homens ("la estraña pareja", descreve o El Mundo) remonta ao referendo de 2016, tendo Dominic Cummings sido o principal estratega da campanha pelo "Leave", de que Johnson foi um dos rostos. Sobre isto vale a pena ver o telefilme "Brexit: The uncivil war", com Benedict Cumberbatch, no papel de Cummings. Muito esclarecedor.
O nobel da Economia Paul Krugman dedica a sua coluna habitual no New York Times, esta quinta-feira, à"economia de não morrer". Não, não é à "economia não morrer", é mesmo a condenar o que, na sua opinião, é uma pressa injustificada e insustentada em reabrir a economia antes da pandemia estar controlada. "De que serve aumentar o PIB se isso nos mata?", pergunta Krugman, admitindo que "Trump e os amigos" até podem ter sorte e, no fim, a sua insistência em voltarmos rapidamente ao "business as usual" nem se traduzir num largo número de mortes. Mas não está nada convencido disso: "porque a insistência na reabertura assenta num alicerce de ignorância voluntária. Deixem lá o PIB; a tarefa essencial de qualquer líder é manter vivo o seu povo. Infelizmente, essa é uma tarefa que Trump não parece interessado em cumprir". Esta semana, os EUA ultrapassaram 100 mil mortos devido ao novo coronavírus e um estudo da universidade de Columbia admite que pelo menos 36 mil mortes poderiam ter sido evitadas se tivesse havido ordens para confinamento logo no início de março. DonaldTrump reagiu acusando a universidade de ser "uma instituição desgraçada".
Mas o lado económico da pandemia também não pode ser negligenciado. Pela décima semana consecutiva deram entrada mais de dois milhões de pedidos de acesso ao subsídio de desemprego nos EUA. A paragem na economia provocada pela Covid-19 já deixou sem trabalho 41 milhões de americanos. Como responder a isto, sem ceder à tentação repentista denunciada por Krugman mas ao mesmo tempo sabendo que o vírus ainda está longe de controlado, é conseguir fazer a quadratura do círculo. E para elevar ainda mais a complexidade da equação, é levar em conta este estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard, noticiado ontem, segundo o qual o mundo ainda está bem longe da imunidade de grupo. Esta, suspeita-se (não há certezas de nada no que respeita ao coronavírus), é atingida quando entre 60 a 80% da população foi infetada e desenvolveu anti-corpos. Ora, mesmo nas cidades mais atingidas pela doença, as percentagens estão muito longe de ser essas: 19,9% em Nova Iorque, 17,5% em Londres, 11,3% em Madrid ou 10% em Wuhan. Afirma o epidemiologista Michael Mine, um dos responsáveis pelo estudo, que "não existe uma boa maneira de construir com segurança essa imunidade de grupo. Não a curto prazo, sejamos francos. A não ser que deixemos que o vírus se espalhe descontroladamente mas esse não é o caminho". Pela primeira vez em 124 anos, a maratona de Boston foi cancelada.
Ainda nos EUA, o governador do Minnesota convocou a Guarda Nacional e declarou estado de emergência nas cidades de Minneapolis e St.Paul, antecipando a terceira noite consecutiva de protestos violentos. Esta madrugada, os manifestantes invadiram e incendiaram uma esquadra, em Minneapolis. As manifestações surgiram na sequência da morte de George Floyd, 46 anos, depois de ter sido detido, numa cena registada em vídeo, por um agente da polícia que pôs o joelho sobre o seu pescoço durante 8 minutos, deixando-o sem respirar (chegou inanimado ao hospital, onde acabou por morrer). Este agente está preso, depois de ter sido despedido da Polícia, assim como os outros três polícias que assistiram à cena sem nada fazer. Mas o Ministério Público ainda não decidiu se o vai ou não acusar de homicídio.
Também voltaram os protestos a Hong Kong, depois do Parlamento ter aprovado ontem a famosa lei de segurança nacional que basicamente considera que todas as liberdades (de expressão, de imprensa, de reunião) são potenciais ameaças à segurança da China. O Expresso recolheu o testemunho de uma estudante de 24 anos, que conta como a autonomia do território que já foi colónia inglesa esmorece a cada dia. Mas para Gustavo Carneiro, membro do Comité Central do PCP, a "brutal repressão" relatada pelos meios de comunicação nunca aconteceu. Está escrito num artigo de opinião publicado ontem n'O Avante, leu a Mariana Lima Cunha. Já Henrique Raposo insurge-se contra o silêncio da União Europeia e escreve que "esta é a oportunidade para a Europa recuperar e liderar o espírito democrático de 89: expulsar a Hungria e enfrentar finalmente a China na questão dos direitos humanos".
FRASES
"Eu espero ser premiado pela inversão do Novo Banco",
António Ramalho, presidente da Comissão Executiva do Novo Banco, sobre os 2 milhões de euros reservados para prémios à administração do banco em 2021
"Sempre fui inocente, deviam ter confiado"
Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting, à saída do julgamento que o ilibou de qualquer envolvimento no ataque à Academia de Alcochete
“Descansem as almas mais inquietas que isso não seria determinante para as nossas opções”
Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, sobre o rombo nas contas para o partido que representaria a não realização da Festa do Avante
"De que serve aumentar o PIB se isso nos mata?"
Paul Krugman, economista norte-americano, discordando da pressa da administração Trump em reabrir a economia
"O tempo que ocupamos a moralizar os problemas é o que perdemos para os entender"
Daniel Innerarity, filósofo espanhol, sobre a gestão da pandemia
O QUE ANDO A LER
É irónico (e paradoxal) o sentimento de urgência que a morte de alguém imprime a gestos que fomos adiando até então. O desaparecimento de José Cutileiro levou-me a finalmente tirar da estante “Ricos e pobres no Alentejo”, que um amigo me oferecera há já alguns natais, depois de vários anos em demanda de um exemplar da obra – editada pela primeira vez, na versão portuguesa, em 1977 e só reeditada quase trinta anos depois. Esse amigo é natural exatamente da zona estudada pelo antropólogo para esta monografia e encontrou nela “as chaves de leitura, os segredos do mecanismo social e económico e também político e social” que lhe faltavam para compreender melhor o “seu” Alentejo e, logo, para se compreender melhor a si próprio. Talvez não seja a obra que melhor faz jus à mestria literária de Cutileiro (ele próprio o assume no prefácio à edição portuguesa: “O livro cuja tradução portuguesa aqui se apresenta foi escrito por mim em inglês e publicado em Oxford em 1971. Não me foi possível escrever o texto português, que apenas revi. O tradutor fez um excelente trabalho mas como o inglês não é a minha língua-mãe e o texto português não é meu, a parte de escritor que há em mim sai deste exercício duplamente confusa”), mas é um retrato que indiscutivelmente nos ajuda a perceber melhor o país que somos e por que o somos. (Mais uma) prova escrita de que quase sempre é preciso irmos à raiz das coisas para lhe vislumbrarmos o sentido.
Sem nostalgia, a vida prossegue. Aqui e ali é registada em notícias que vale a pena ler, ver ou ouvir em sites como os do Expresso, da Tribuna, da Blitz ou da SIC Notícias. Amanhã (ou, online, já a partir da meia-noite) há edição semanal do Expresso. Bom fim-de-semana.
Gostou do Expresso Curto de hoje?
Ao subscrever, a informação partilhada será usada de acordo com a Política de Privacidade
Sugira o Expresso Curto a um/a amigo/a
Partilhe esta edição