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Uma vaga de palavras vagas
Bom dia,
Uma taxa de crescimento dos novos casos de infecção de 0,5% e um aumento de 1% no número de vítimas mortais, com uma subida para 4,32% da relação entre os portadores do novo coronavírus que desencadeia a covid-19 e os óbitos. Estes são, em resumo, os dados mais recentes da direcção-geral da Saúde sobre a evolução da pandemia em Portugal, onde os doentes que recuperaram totalizam, agora, perto de 18 mil. Aparentemente, o surto permanece sob controlo em território português e o facto de esta segunda-feira apenas se terem identificado novas situações de infeção nas regiões do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo dá um sinal de que a progressiva reabertura da economia e o regresso da sociedade à nova normalidade comportam riscos que podem ser controlados. Mas será assim tão fácil?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) está a transmitir perspectivas difíceis de compatibilizar. Em causa está a possibilidade de eclosão de uma segunda vaga, com um novo pico que forçaria a novas restricções. Uma dose de bom senso, ainda que esquálida, permite constatar que o vírus não desapareceu, tem uma forte capacidade de propagação, não existe vacina e não se conhecem fármacos plenamente eficazes, realidades que aconselham prudência e cumprimento das regras de distanciamento e de protecção. Neste cenário, uma segunda vaga não pode ser um mero tema de especulação e debate fútil entre peritos que apreciem discordar.
Michael Ryan, que tem a responsabilidade de liderar o programa de Emergências Sanitárias da OMS, foi claro durante a conferência de imprensa que deu nesta segunda-feira. É preciso "estar ciente de que a doença pode disparar a qualquer altura", afirmou Ryan: "não podemos supor [que os números de novas infecções] vão continuar a descer e que teremos alguns meses para nos preparar para uma segunda vaga. Pode acontecer um segundo pico, como aconteceu noutras pandemias, como na da gripe pneumónica".
Maria Van Kerkhove, principal responsável técnica da OMS no combate à covid-19, alertou que os estudos de seroprevalência já efetuados são poucos. "Se encontrar uma oportunidade, este vírus provocará surtos. Uma característica única deste coronavírus é a capacidade de se amplificar em certos ambientes fechados, com uma super-propagação, como temos visto em lares de idosos ou hospitais", acrescentou. Até aqui, parecia reinar o consenso no interior da organização, mas María Neira desfez as ilusões.
Durante uma entrevista à rádio catalã RAC1, a diretora do Departamento de Saúde Pública da OMS afirmou ser "cada vez mais" improvável a ocorrência de uma segunda grande vaga, embora tenha recomendado muita prudência. E adiantou que os modelos de previsão com que a organização trabalha "avançam muitas possibilidades, desde novos surtos pontuais a uma nova vaga importante, mas esta última possibilidade é cada vez mais de descartar". Com estas palavras de natureza potencialmente tranquilizadora, María Neira acabou por deixar as coisas um pouco confusas. E preocupantes.
Para representantes dos médicos, enfermeiros e psicólogos portugueses, as mensagens divergentes transmitidas por altos responsáveis da OMS não trazem nada de positivo. Exigem uma comunicação feita com clareza, sublinham que é necessário evitar a "ansiedade" e o "afrouxamento" resultantes da "incerteza" e avisam para os perigos do "futurismo". “É arriscado falar-se à volta de probabilidades sem que exista já um grau de certeza minimamente consensualizado. Quando se está a comunicar à frente de um organismo destes [OMS], aquilo que se diz tem um elevadíssimo impacto nas pessoas e no que elas sentem”, afirma Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos.
A segunda vaga de covid-19 é uma possibilidade, mas as palavras vagas que chegam da OMS são uma certeza. Em qualquer dos casos, não são coisas que se desejem.
OUTRAS NOTÍCIAS
Nasceu em Hong Kong em 1921, cidade de onde fugiu 20 anos depois quando da invasão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial, e faleceu esta terça-feira na antiga colónia britânica aos 98 anos. Stanley Ho construiu um império empresarial e tornou-se multimilionário a partir do negócio dos casinos e do sector hoteleiro em Macau. No território então administrado por Portugal, conseguiu assegurar o monopólio da exploração do jogo em 1962, situação que só seria alterada no início do século XXI, depois de a cidade ter sido devolvida à China. Em Portugal, assumiu a posição de maior accionista da Estoril Sol, proprietária do Casino Estoril, nos anos 1980. Teve quatro mulheres e foi pai de 17 filhos. A fortuna que acumulou está avaliada em seis mil milhões de dólares, cerca de 5,5 mil milhões de euros.
As declarações sobre a possibilidade de a pandemia de covid-19 colocar em causa a democracia revelaram-se um pouco exageradas. Depois de ter analisado as decisões do conselho de ministros que já mereceram a atenção da Assembleia da República, Mariana Lima Cunha concluiu que um dos efeitos da crise foi o da "intensificação do escrutínio parlamentar da esquerda aos decretos que o Governo foi produzindo em catadupa para dar resposta a necessidades económicas e sociais do país". Em dois meses, "houve mais apreciações parlamentares do que nos cinco meses anteriores" da actual legislatura.
Chama-se “planeamento fiscal” e é uma forma de os contribuintes reduzirem a factura dos impostos. Os especialistas neste jogo do gato e do rato entre quem paga impostos e quem os cobra acrescentam-lhe a palavra “agressivo” para designar situações em que se atingem os limites da legalidade. Esta terça-feira, a Assembleia da República discute um novo regime para as regras de divulgação destes esquemas, propostos aos clientes por bancos, consultores, contabilistas ou auditoras. É um tema controverso e a Comissão Nacional de Proteção de Dados considera não ser razoável que o Fisco fique a conhecer a identidade dos contribuintes, pessoas singulares, que encomendam estas operações. Elisabete Miranda explica o que está em causa.
Uma nova injecção de dinheiro no Novo Banco, prevista e acautelada no Orçamento do Estado para 2020, recolocou a instituição financeira criada durante o processo de resolução do Banco Espírito Santo no centro da discussão política, de onde raramente tem saído, aliás. As perplexidades são muitas, alimentadas pelo facto de uma parte dos documentos que fixam as condições em que o banco foi vendido aos investidores da Lone Star não ser do conhecimento público. Diogo Cavaleiro recorda que documentos são esses e indica que aquilo que parece não correr bem pode correr ainda pior. O "Público" noticia esta terça-feira que o Tribunal Constitucional voltou a confirmar a coima, no valor de 3,7 milhões de euros, que foi aplicada pelo Banco de Portugal a Ricardo Salgado, ex-líder do BES.
Cem migrantes, entre os quais 30 mulheres, foram esta segunda-feira retirados do mar Mediterrâneo por um navio português. Os responsáveis do "Anne" entregaram as pessoas recolhidas às autoridades líbias, numa iniciativa que está a ser criticada por organizações não governamentais. A Líbia é considerada um local inseguro pela lei internacional de resgates de refugiados do mar e o receio é o de que venham a sofrer maus tratos físicos e psicológicos no país. O Governo alega que a embarcação de bandeira portuguesa cumpriu os procedimentos previstos para estas situações, mas adianta que está a recolher informação sobre o caso, conta Ana França.
Substituir progressivamente por hidrogénio o gás natural nas centrais eléctricas e os produtos petrolíferos nos veículos. Estes são dois objectivos que o Governo pretende alcançar a prazo, através de uma estratégia que entrou agora em período de consulta pública. As dúvidas são, ainda, muitas, sobretudo por causa das dificuldades colocadas pela viabilidade económica de todo o projecto. Miguel Prado investigou o tema e responde a dez questões fundamentais para se perceber que desafio é este e que hipóteses tem de ser superado.
Eram amigas "inseparáveis até que se separaram. Mas, durante décadas, Maria Alzira Seixo, crítica literária, foi uma das primeiras leitoras da escritora Maria Velho da Costa. A notícia da morte desta última deixou-a com uma 'uma dor no coração', apesar de, há 20 anos, o corte de relações entre ambas ter deixado um sabor amargo". Luciana Leiderfarb escreve sobre uma amizade que terminou e a comoção causada por uma perda.
“A haver jogo que justifique o cliché que no futebol diz para se levantarem cabeças, foi este, há 15 anos e em Istambul, quando uma equipa de caras com jogadores inferiores ressuscitou para virar uma final da Liga dos Campeões”, escreve Diogo Pombo. Em causa está uma partida épica, realizada a 25 de Maio de 2005. No final da primeira parte, o Liverpool perdia por três a zero. Recuperou o ânimo no segundo tempo, conseguiu empatar, levou o desfecho para as grandes penalidades e garantiu, perante os desorientados adversários do AC Milan, que a taça iria enriquecer o palmarés do clube da cidade dos Beatles.
Os jogos da principal divisão portuguesa de futebol que ainda falta disputar não terão público nas bancadas dos estádios. Pedro Proença, presidente da Liga, queria que as partidas fossem transmitidas em sinal aberto. Como? O Governo injectaria dinheiro nos canais generalistas para que estes tivessem condições de pagar pelos conteúdos às operadoras de telecomunicações e estas pudessem, por sua vez, ressarcir os clubes. Parece que não vai acontecer e este não será o maior dos problemas para o antigo árbitro. O Cova da Piedade juntou-se ao Benfica e decidiu abandonar a direcção liderada por Pedro Proença. O futebol está de regresso e as respectivas guerras internas também.
Com dois rivais na corrida, Pinto da Costa vai candidatar-se a um 15º mandato na liderança do FC Porto, que exerce desde 1982. “Queremos continuar a ser um caso de estudo no panorama do futebol mundial, e isso implica superar deficiências nos planos financeiro, organizacional e desportivo. Além disso, impõe-se renovar os órgãos dirigentes do clube. Os objetivos serão os mesmos de sempre: ganhar, ganhar, ganhar", garantiu o presidente portista. A parte do programa relativa à renovação dos órgãos dirigentes é a mais curiosa.
FRASES
“Não podemos supor [que os números de novas infeções] vão continuar a descer e que teremos alguns meses para nos preparar para uma segunda vaga”, Michael Ryan, director-executivo do programa de Emergências Sanitárias da Organização Mundial da Saúde
“Dizem-nos agora que os números são consoladores, e são de facto, mas ainda assim não há certezas de que isto não possa voltar atrás, de que não se possa voltar a fechar tudo se as pessoas não acatarem as ordens e o número de novos casos disparar”, Daniel Rijo, psicólogo
“Acompanho profissionalmente uma pessoa que teve sintomas de um ataque cardíaco e que não foi ao hospital por medo. Ponderando o risco, as pessoas preferiam ficar em casa para se sentirem mais protegidas”, Alexandra Moura Coelho, psicóloga
"Sugiro fazermos matinés. É incomportável rendibilizar concertos com distanciamento", Rita Redshoes
O QUE ANDO A LER
No capítulo inicial de “Criadores”, Paul Johnson recorda as reacções negativas que lhe chegaram a propósito de um livro anterior, que lançou em 1988. Sob o título “Intelectuais”, o historiador britânico analisava de forma crítica a “discrepância entre os ideais professados” por diversas figuras a quem se aplicava aquele epíteto “e o seu verdadeiro comportamento na vida pública e privada”. Muitos ficaram mal na fotografia, apanhados em situações flagrantes de hipocrisia, o que valeu a Johnson a acusação de que a obra era “mal intencionada”, ao dar relevo ao lado “mais sombrio de indivíduos inteligentes e talentosos”, em vez de se concentrar nos “aspectos criativos e heróicos da elite”.
Os reparos não impediram o largo sucesso de “Intelectuais”, mas também não caíram em saco roto. Em 2006, Paul Johnson decidiu avançar com a publicação de um novo livro. Desta vez, apontou o foco da sua atenção sobre homens e mulheres de “notável originalidade”, os “criadores” a que alude o título da obra. Em cerca de três centenas e meia de páginas, o historiador passa em revista a obra de 17 personalidades que conquistaram a eternidade através da obra que produziram.
Escritores e poetas como Chaucer, Shakespeare, Jane Austen, Mark Twain, Victor Hugo e T.S Eliot, pintores como Dürer, Turner, Hokusai e Picasso, mas também arquitectos como Pugin e inovadores como Walt Disney, génios da música como J.S. Bach ou gente do mundo da moda como Balenciaga, desfilam pelos capítulos deste livro. Com notável erudição e largo conhecimento do percurso e da produção deste grupo de criadores, Paul Johnson explica as razões que sustentam a importância que assumiram nos domínios em que se distinguiram, ao ponto de os seus campos de arte terem mudado para sempre através da sua visão, do seu trabalho e da sua criatividade.
Paul Johnson afirma que, “de uma forma ou de outra”, todos “podemos criar” e “a maioria de nós fá-lo”. E acrescenta que a “arte da criação” é a actividade que “mais se aproxima de servir como remédio soberano para os males da existência”. Os artistas, mas não só, que no dia-a-dia são confrontados com a angústia que frequentemente acompanha o esforço criativo poderão ter algumas reservas sobre esta visão optimista. Mas não restam dúvidas de que, no essencial, o historiador tem razão. O mundo seria um lugar menos interessante se criadores como aqueles que integram este livro, entre muitíssimos outros, não se tivessem dedicado a criar os livros, os filmes, a música, as telas, os edifícios e, até, a roupa que acabaram por legar para bem da felicidade humana.
O QUE ANDO A OUVIR
“Worlds Collide”, Michael Janisch. Contrabaixista nascido nos Estados Unidos mas que se fixou no Reino Unido, já leva no currículo uma vasta lista de colaborações com nomes relevantes, de Joe Lovano a Mark Turner, de Kenny Wheeler a Wynton Marsalis ou Evan Parker. “World Collides” é o quinto álbum que assina, preenchido por sete temas originais de pós-bop executados com entusiasmo.
“Another Kind of Soul”, Tony Kofi. O saxofonista regressa à música que Cannonball Adderley fez nos anos 1950 e 1960 num álbum que foi gravado em quinteto durante dois concertos realizados em Inglaterra. A música que aqui se pode escutar é enérgica e descontraída.
“Magician”, Erroll Garner. Um dos grandes pianistas de sempre, autor de um dos discos que integram o cânone do jazz, “Concert by the Sea”, de 1955. “Magician” surgiu em 1974 e foi agora reeditado em versão remasterizada. O humor e a boa disposição de Garner atravessam o repertório desta gravação, entre “standards” e composições originais.
“Portrait”, João Barradas. O acordeonista, compositor e improvisador lançou, este ano, dois álbums em simultâneo, um deles a solo. Em “Portrait”, João Barradas lidera um quinteto que inclui Mark Turner no saxofone, Simon Moullier no vibrafone, Naima Acuña na bateria e Luca Alemanno no contrabaixo. O resultado é música espontânea e genuína, por vezes mais desafiante, noutras ocasiões melódica e reflexiva.
E é tudo. Acompanhe a actualidade através do Expresso, Tribuna e Blitz e tenha um excelente dia.
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