Rio acabou como começou: a explorar os erros do adversário
04.10.2019 às 20h56
TIAGO MIRANDA
A última ação do líder social-democrata ficou marcada por mais um erro dos socialistas, desta vez erro direto do adversário principal. Foi o desfecho ideal para resumir a campanha de Rio - feita em circuito controlado e dependente das “falhas” de António Costa
O momento do dia:
A arruada do Chiado, naturalmente. Com uma maior mobilização de que no dia anterior, no Porto, a máquina social-democrata esteve à altura e cumpriu o que era suposto: dar uma grande imagem de união.
A frase:
“Acho que as pessoas me conhecem. Alguma vez eu ia fazer semelhante coisa [plantar o incidente]? Por amor de Deus."
Rui Rio, líder do PSD
O personagem:
O anónimo que confrontou António Costa. As golas inflamáveis tiveram um secretário de Estado que se demitiu. Tancos teve um “Fechaduras” que virou o regime de pernas para o ar. O último dia de campanha teve Costa visivelmente irritado com um ancião. Tudo sem a mais pequena intervenção de Rui Rio. A personagem da campanha do PSD veio da campanha do PS.
A fotografia:
A arruada de Rui Rio no Chiado, em Lisboa
A polémica das golas inflamáveis caiu do céu. E Rui Rio animou-se. O caso de Tancos caiu do céu. E Rui Rio tentou capitalizar até mais não. Os empurrões entre António Costa e um popular caíram do céu. E Rui Rio mal disfarçava o divertimento. Aliás, ninguém na última arruada do PSD falava de outra coisa. “Perdeu a cabeça!”, “Está desesperado!”, “Se isto ainda durasse mais uns dias, virávamos…”, ia-se ouvindo entre os militantes e simpatizantes sociais-democratas.
Rio chegou ao Largo do Chiado às 18h26 e minutos depois já estava a falar aos jornalistas. “Acho que as pessoas me conhecem. Alguma vez eu ia fazer semelhante coisa [plantar o incidente]!? Por amor de Deus. Que António Costa venha repor o que sabe que não é verdade”, disse. Estava marcado o ponto, era momento de seguir a marcha.
E a marcha seguiu sem incidentes, um par de horas depois de António Costa ter percorrido as mesmas ruas. Com mobilização considerável e sem precedentes nesta campanha - até mais do que teve no dia anterior, no Porto. Às 19h10, já Rio se despedia dos militantes num discurso curto e reduzido ao mínimo - a festa do comício foi cancelada em homenagem a Freitas do Amaral.
Sem acrescentar nada em relação ao que tinha dito nos dias anteriores - uma constante nesta campanha - o líder social-democrata limitou-se a vender a grande mensagem que tem para o dayafter: mesmo perdendo, está disponível para fazer as reformas necessárias. “Estamos na política para honrar aquilo que sempre tenho dito: em primeiro, está Portugal. Só depois o partido. Fizemos o nosso trabalho e aguardamos serenamente o resultado”, disse.
Rio despediu-se de uma corrida eleitoral que, tal como explica o Expresso na edição em papel, fez como quis, quando quis. Ironia das ironias, começou o seu último dia eleitoral ao lado de muitos dos seus mais duros críticos e terminou-o ao lado de uma das apoiantes de sempre: Manuela Ferreira Leite. A ex-ministra das Finanças apareceu pelo braço de Salvador Malheiro e acabou a pedir a Rui Rio que continuasse na liderança mesmo perdendo. “Não há ninguém que se perfile que tenha qualquer tipo de capacidade de mobilizar a população como ele mobilizou a despeito da situação política”, disse. Resta saber se depois de 6 de outubro haverá gente suficiente a concordar com ela.