Legislativas 2019

Livre dedica último dia de campanha aos “afetos” para contrariar “tempos de ódio”

04.10.2019 às 22h21

MIGUEL A. LOPES / LUSA

Na expectativa de se eleger para a Assembleia da República, Joacine Moreira diz que “vivemos tempos de ódio” e que, por isso, não ser eleita não seria uma desilusão. “Uma enorme desilusão seria não ser eleita para deixar entrar um deputado não democrático”

Num último dia de campanha marcado pelo incidente de António Costa, o Livre foi buscar inspiração a uma outra figura da política portuguesa. “Optámos por um dia não institucional, mas de afetos, como faz o Presidente da República”, ri-se Joacine Moreira, a cabeça de lista do partido mais próxima de se eleger. Para a candidata por Lisboa, a política é feita de ideias, mas “neste tempo de ódio” exige proximidade. “Nós já não nos olhamos nos olhos.” Se o fizéssemos, acredita, “o ódio que há nas redes sociais não existiria”. Não é nas pessoas que ele está, reflete — “o ódio está no excesso de informação, que faz com que a informação útil tenha de competir com a informação inútil.”

Além de um olhar sobre o tempo, o comentário de Joacine Moreira tem uma origem muito próxima: depois de a gaguez ter ocupado parte do discurso sobre a candidata, surgiram nos últimos dias acusações de que Joacine não seria gaga, mas estaria a usar o facto como arma de campanha. “Bastaria a essas pessoas escreverem uma palavra no Google, o que aparentemente está ao alcance de todos: gaguez. Perceberiam o que ela é”, afirma ao Expresso, acrescentando que casos destes mostram que “a internet não é verdadeiramente democrática”. “O que ela democratizou foi o que não nos une, as ansiedades, as neuroses.” Para o mudar, “é preciso mais investimento na educação”.

Não é essa a única bandeira que o Livre tem agitado nos últimos dias. Na sexta-feira final, antes do dia de reflexão, o partido esteve numa ação de campanha no bairro Novo do Pinhal, em São João do Estoril, onde conversou com os moradores sobre outras duas: habitação e imigração. Também os ouviu, nuns casos a lamentarem o aumento da renda das casas e, noutros, a ver um encolher de ombros. Aos 67 anos, um dos moradores diz mesmo que pouco mais quer do que “ganhar o pão do dia a dia”. Joacine interrompe: “Esta era a retórica dos meus pais, deixarmo-nos ficar no nosso canto a ganhar o pão. Não é a retórica da minha geração, nem das mais novas.” A lei da nacionalidade e a representatividade, na política e nos cargos de poder, são temas recorrentes na campanha que a candidata tem feito. No bairro também conhecido por Fim do Mundo, Joacine não viu nada de muito diferente do que conhece da Arcena,onde cresceu e onde também tinha estado com o Expresso. As barracas, as demolições, a habitação social, a construção para venda, e “as pessoas a ser empurradas, afastadas.” É por isso, remata, que “nenhum imigrante consegue verdadeiramente sair do ciclo de pobreza.”

A figura de Joacine Moreira entrou com tal força na campanha que não é raro ouvir nas ruas “eu não voto no partido: eu voto na senhora”. Rafael Martins, membro do Livre e um dos mais ativos nas arruadas, reconhece “o perigo de uma política feita de emoções”, mas garante que a abordagem tem sido “genuína” “Vivo em Queluz e jamais vi isto. Houve sempre uma separação entre as pessoas. E agora, mesmo as que estavam marginalizadas em relação à política, interessam-se a partir da figura dela.” A candidata de quem se fala acha que “as pessoas não estão habituadas a ver alguém que não entra no espectro do político tradicional.” E que isso, “como qualquer ação, gera reação”. Nem sempre positiva, o que é também um sinal dos tempos — “está a acontecer o mesmo no resto da Europa”.

O passeio de Joacine Moreira pelo Fim do Mundo incluiu uma visita à associação guineense “Filhos e Amigos da Ilha de Jeta” e foi feito em marcha lenta, às vezes parada. Tinha começado na praça central do bairro, que está de frente para um prédio onde se vê um desenho em toda a fachada, com o dizer: “não há fim sem início”. O caminho feito durante a campanha, sobretudo nas sondagens, foi dando ao Livre uma esperança crescente de chegar ao fim com um deputado na Assembleia da República. Mas nada garante que esse seja o fim desta história. “Não ser eleita não seria uma desilusão”, garante a candidata. “Mas não ser eleita para deixar entrar um deputado não democrático seria uma desilusão enorme.”

Depois da festa de encerramento na noite de quinta-feira, o Livre fecha definitivamente a campanha esta noite, no Marquês de Pombal.

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