Jerónimo fecha campanha com promessa de voltar daqui a quatro anos
04.10.2019 às 23h20
"Isto é mesmo à Porto, carago", disse Jerónimo de Sousa, depois de uma arruada na baixa portuguense onde, finalmente, a CDU fez a festa. Houve muita gente e, pela primeira vez nesta campanha, a JCP gritou a plenos pulmões, dançou e coreografou a habitual "carvalhesa". Entusiasmado, o líder até deixou a promessa de voltar daqui a quatro anos. Um sinal que está para ficar?
O momento do dia:
Não será propriamente um 'momento' de campanha, mas as declarações prestadas aos jornalistas a meio de mais um dia de campanha, têm um significado político relevante para o pós-eleições. E só por isso, merecem ficar registadas. Respondia Jerónimo às perguntas sobre as sondagens que apontam para uma clara perda de eleitorado para a CDU. Como de costume, o líder chutou para canto, disse que "as sondagens por enquanto ainda não votam" e que "ainda falta realizar as iniciativas que estão em curso". Também voltou a afirmar que "está confiante" e bla bla bla, mas quanto a saber se, na próxima segunda feira, os comunistas estão prontos a dialogar com o PS para um novo acordo de Governo, Jerónimo preferiu não se comprometeu. Não fechou a porta, mas também não a escancarou. "Neste momento ainda não estamos a fazer contas", disse. Para memória futura, ficam ainda duas outras ideias fundamentais: que o PCP falará "com o PS, como falará com outras forças políticas" e que "o processo se desenvolverá depois de conhecidos os resultados". Um nim que, já para a semana, se poderá definir.
A frase:
"Deixo-vos um convite: votem na CDU e cá estarei (pausa) e cá estaremos dentro de quatro anos para mostrar como honramos os nossos compromissos."
Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP no final da arruada em Santa Catarina, no Porto
O personagem:
A Juventude Comunista Portuguesa (JCP) costuma ter o papel de maior animadora dos comícios e arruadas dos comunistas. Em todas as campanhas eleitorais tem sido assim mas, nesta, as coisas não têm corrido tão de feição. Falta ânimo e festa na maior parte das iniciativas da corrida eleitoral comunista. No Porto, não foi assim. O grupo da juventude comunista foi a grande alma da arruada que trouxe Jerónimo de Sousa do fundo da Avenida dos Aliados até quase ao topo da Rua de Santa Catarina.São 700 metros, quase sempre a subir, o que cansa o líder e o seus acompanhantes, onde abundam cabelos brancos e mazelas várias,. Além do mais e ao contrário do que sempre aconteceu nestes quinze dias de campanha, desta vez Jerónimo chegou com um atraso de 45 minutos, capaz de fazer esmorecer qualquer impeto revolucionário. Mas a força e a militância dos JCPs compensaram tudo o resto. Até à meta gritaram a plenos pulmões as palavras de ordem, agitaram bandeiras e ergueram os punhos ao alto. No final, dançaram a "carvalhesa", enchendo a rua de Santa Catarina de uma alegria raramente vista ao longo de toda a campanha.
A fotografia:
Uma mulher furou a barreira de segurança e o muro de militantes que acompanhavam Jerónimo para dar o abraço mais apertado de todos os recebidos pelo líder comunista na arruada do Porto. De molho de cravos na mão, foi o encontro de dois velhos militantes e amigos comunistas.
Terá sido engano, ou um aviso do que pretende e quer fazer no seu futuro imediato? Jerónimo de Sousa terminou a arruada do Porto - sem dúvida a mais animada, senão mesmo a mais participada de toda a campanha eleitoral comunista - com uma promessa de voltar "daqui a quatro anos" para mostrar que o seu partido cumpriu as promessas que agora deixou nas duas semanas de corrida eleitoral. O Congresso comunista que vai decidir quem será o próximo secretário geral está marcado para 2020 e, até agora, permanece a dúvida se Jerónimo de Sousa vai, ou não, cumprir o seu quinto mandato ao leme do PCP. Será que o líder deixou, no Porto, um primeiro sinal do que quer fazer?
"Posso garantir que, neste momento, essa questão não está colocada", tem sido a resposta 'chapa-um' dada e repetida pelo líder comunista. E se os jornalistas insistem, ou tentam puxar o tema da liderança para cima da mesa, dribla o jogo e foge à perguta. "Nós não temos um problema interno e um dia a vida o dirá", disse ainda, ontem, aos microfones da TSF sobre quem lhe irá suceder no próximo mandato.
O certo é que a sucessão de Jerónimo de Sousa é um assunto incontornável. Sobretudo, quando é na figura do secretário-geral que se concentram todas as atenções das campanhas eleitorais do PCP. Todas as ações giram em torno dele, é com ele (e só com ele) que se conseguem casas cheias ou comícios participados. É, na verdade, Jerónimo que os militantes querem ouvir, ver e tocar. Não restam dúvidas de que o líder é o principal trunfo político do partido. Tal como é claro que o PCP não está, neste momento, em condições de se dar ao luxo de poder prescindir dele.
Mas, se Jerónimo "voltar daqui a quatro anos", como disse aos militantes do Porto, muito terá de mudar. Desde logo, na forma como as campanhas estão montadas. Os milhares de quilómetros percorridos esgotam qualquer mortal e, aos 72 anos Jerónimo de Sousa, mesmo em forma, mostra sinais de desgaste. Além disso, os contactos de rua, as arruadas ou os porta-a-porta, tornam o líder um alvo de sobreexposição aos afectos que os militantes mais fervorosos - sobretudo mulheres - fazem questão de lhe dispensar, com abraços demasiado apertados, palmadas nas costas demasiado fortes, já para não falar nos beijos repenicados e afectuosos com que acaba sempre por ser brindado.
Foi assim, na maior arruada desta campanha. "Isto é mesmo à Porto, carago", comentou Jerónimo no final da iniciativa que marcou o dia da CDU. Apesar do cansaço de dias na estrada e dos casos que atrapalharam a estratégia dos comunistas - primeiro com a troca de mimos do PS aos seus parceiros da 'geringonça' e, logo a seguir, com a polémica de Tancos - o ânimo, hoje, esteve em alta. Jerónimo ainda tentou manter-se de fora dos "casos" que iam sucedendo numa campanha atribulada com a agenda política. Começou por confessar: "Eu não me queria meter nisto", mas acabou por ser obrigado a falar dos repiques de António Costa ou do roubo das armas de Tancos que seguem para tribunal, levando um ministro da Defesa atrás. Na verdade, Jerónimo queria uma campanha "tranquila". Não a conseguiu ter. Nem mesmo quando a quebra eleitoral se foi acentuando nas sondagens, apesar dos esforços feitos no terreno, os apelos para que "não se volte atrás" e nos avisos quanto aos perigos de ter "o PS de mão livres".
"Está difícil isto, pois está", confessou o líder comunista. É, talvez, uma das suas melhores frases da campanha. Já no domingo se verá o que, verdadeiramente, pode significar.