Livre. Rui Tavares avisa que eventual acordo à esquerda terá de ser por escrito
02.10.2019 às 16h09
O fundador do Livre, Rui Tavares (D), ladeado pelo candidato do Partido, Carlos Teixeira (E), durante a ação de campanha “Salvar a Serra de Carnaxide”, a 2 de outubro
ANTÓNIO PEDRO SANTOS
As mais recentes sondagens dão o Livre como candidato a uma estreia na Assembleia da República. Sem a presença da cabeça de lista por Lisboa, Joacine Moreira, o partido esteve numa ação de campanha na serra de Carnaxide. E deixou avisos
Se não por outro motivo, a ausência do principal rosto da campanha do Livre às legislativas serviu para tornar a ação desta quarta-feira diferente de todas as outras. Ao contrário do que estava programado, a cabeça de lista Joacine Katar Moreira não subiu à Serra de Carnaxide — teve um “imprevisto”, que até convém a um partido que se mostra cada vez mais confiante de eleger também o número dois por Lisboa, Carlos Teixeira. As sondagens alimentam essa esperança: foram duas, da Universidade Católica e da Pitagórica, e ambas põem o Livre como principal candidato a estrear-se na Assembleia da República. “Não é uma crença. É uma tendência crescente. Com a Joacine a trabalhar muito bem na causa social e com a possibilidade de eleger dois ambientalistas, podemos ter impacto”, avança Carlos Teixeira, fazendo ainda referência a um possível terceiro deputado, Jorge Pinto, engenheiro e cabeça de lista pelo Porto. Três deputados foi, precisamente, a meta que o Livre traçou no início da campanha.
A causa ambiental é um dos principais cavalos de batalha do partido, que tem insistido na ideia da inexistência, em Portugal, de um representante “da esquerda verde europeia”. Também por isso, a manhã desta quarta-feira foi passada na serra de Carnaxide, “o único espaço verde entre o Monsanto e Sintra”, com vistas desabrigadas para Lisboa e para o Atlântico, estendido à frente. Sob a responsabilidade de três municípios, Sintra, Amadora e Oeiras, parte dos 600 hectares servem agora para a construção de uma série de empreendimentos que, para os ambientalistas, põem em causa a própria existência da serra e das populações que vivem de frente para ela. Eugénio Sequeira é um desses ativistas presentes na ação de campanha do Livre e lembra as cheias de novembro de 1983, que afetaram as regiões de Loures, Lisboa e Cascais, provocando dez mortos. “Com estas construções, aumenta o risco de cheias”, avisa o investigador e ex-presidente da Liga para Protecção da Natureza. E se a água desce pela serra, quem sofre é quem está cá em baixo. “É a tragédia dos comuns”, chama-lhe Carlos Teixeira.
Não é preciso procurar muito para perceber do que se fala. Lá em cima, no topo da serra, cresce um bairro — “dizer bairro é pouco”, corrigem — chamado SkyCity, que terá 365 fogos habitacionais, entre moradias e apartamentos. A vista promete. “Grande vista, grande preço”, acrescenta Sequeira, lembrando que um metro quadrado, “quando se trata de terreno, mesmo que muito bom, vale um euro. Quando passa para construção, vale 24 ou 25 euros.” É grave, avisam, porque “solos com esta capacidade não há muitos em Portugal, são 4 a 5% do território nacional.” A serra de Carnaxide era até aqui uma das poucas zonas não edificadas nos arredores da capital. E o SkyCity não está sozinho: há mais dois mini-bairros previstos, além de um campo de treinos do Sport Lisboa e Benfica.
Na ação do Livre pela serra, caminharam lado a lado Carlos Teixeira e Rui Tavares, fundador do partido, acompanhados ainda por alguns militantes e por ativistas integrados num movimento de cidadãos pela defesa da serra. Protestam contra a urbanização da região e criticam os partidos, nomeadamente os da esquerda parlamentar, para quem a agenda ambientalista tem sido feita, sobretudo, “de retórica” (o Expresso mostra aqui o que há de “política verde” nos programas dos partidos).
“Temos de nos habituar a discutir documentos escritos”
Com a subida do Livre nas sondagens, abre-se espaço para o partido entrar na balança do poder e de uma eventual solução política à esquerda, que Rui Tavares defende há muito. Questionado sobre a disponibilidade para um acordo com o PS, e de que forma, o fundador do Livre respondeu que “a política não pode viver de estados de alma”. “Temos de nos habituar a discutir documentos”, que representem “compromissos” escritos e não “medidas avulso”. Admitindo estar disponível para conversar não só com António Costa, “mas com toda a esquerda”, Rui Tavares avisou que “não será nada ao estilo da ‘Geringonça’, que já temos dito que serviu mais como remendo do que como remédio.” Para o também mandatário da campanha do Livre, os avanços e recuos da convergência à esquerda provocaram “uma espécie de diálogo de surdos” na Assembleia.
“O Livre quer ser uma voz forte, nomeadamente a nível europeu”, até porque se avizinha a Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (será entre 1 e 30 de junho de 2021, sensivelmente a meio da próxima legislatura). E, apesar da confiança, ninguém no partido esquece o passado recente. “Há quatro anos as sondagens também nos davam hipóteses. São os votos que vão eleger o Livre para a Assembleia da República”, alerta Rui Tavares. Em 2015, a coligação Livre/Tempo de Avançar conseguiu pouco mais de 39 mil votos (0,73%), não elegendo qualquer deputado.