A irritação é tanta que o homem gesticula. Dedo no ar. Pequenas pancadinhas com a mão na mesa: “Esta não é forma de se apresentar na nossa cidade!” Aquele a quem se destina a admoestação esconde as mãos debaixo da mesa, do outro lado da assembleia. O rosto está lívido. A cabeça descai para um dos lados, enquanto os ombros se movem como pratos de uma balança à procura de um novo equilíbrio. A situação é caricata. O homem, cabelo e barba grisalhos, encolhe-se como um aluno que acabou de ser espezinhado pelo professor, à frente da turma. O admoestado é um “Jeff-Bot”, Brian Huseman. Não é Jeff Bezos. É um dos mais altos responsáveis da Amazon, educado segundo as regras do fundador da plataforma online, que há 27 anos começou por vender apenas livros. Duas semanas depois de esta cena ter acontecido, numa audição pública da assembleia municipal de New York City, a Amazon quebra um acordo multimilionário com a cidade. A leitura é clara. Um Jeff-Bot pode parecer vencido. Mas um Jeff-Bot não é Jeff Bezos.
A canção ‘My Way’, de Frank Sinatra, o homem que melhor cantou a cidade de Nova Iorque, assenta como uma luva a Jeff Bezos, e ao que aconteceu neste e noutros processos que a Amazon enfrentou, se nos dermos ao trabalho de conjugar os verbos da letra no presente e no futuro. Afinal, Jeff Bezos tem 57 anos; e já há algum tempo que oscila entre o primeiro e o segundo lugar na hierarquia do homem mais rico do mundo (lugar que, depois do divórcio, a sua ex-mulher também já ocupou). Como epíteto, ser o mais rico do mundo parece interessar-lhe pouco. As suas ambições não são terrenas. São “lunares”.
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