Economia

Covid-19: Portugueses levantam cada vez menos dinheiro com cartões e usam-nos mais para comprar frutas e legumes

25.05.2020 às 15h43

AFP/GETTY IMAGES

Em abril, as operações com cartão de pagamento caíram 42,9% em número e 28,8% em montante. Impactos da pandemia que estão a mudar os hábitos dos consumidores. Já as compras online e com cartão contactless dispararam

É preciso recuar 11 anos, até fevereiro de 2009, para encontrar um número mais baixo em termos de operações com cartão, revelam dados do Banco de Portugal esta segunda-feira. Em abril as operações caíram 42,9% para 114,7 milhões, face a igual período de 2019. Já em termos de montante, a utilização dos cartões de pagamento caiu 28,8% para 7,3 mil milhões de euros, tendo sido o valor mais baixo registado em fevereiro de 2015.

A mesma evolução negativa registou-se com os levantamentos em numerário: diminuíram 51,9% em número de operações realizadas (17,2 milhões) e 40,3% em montante levantado, cerca de 1,5 mil milhões de euros. O que segundo o Banco de Portugal não tinha acontecido nos últimos 20 anos.

Em abril, prossegue o supervisor da banca, "as compras efetuadas decresceram de forma igualmente significativa relativamente ao período homólogo: 42,5% em número e 39,7% em valor, para 60,9 milhões de operações (número mais baixo desde fevereiro de 2014), no valor de 2,4 mil milhões de euros (valor mais baixo desde fevereiro de 2015)".

O que quer dizer que "em média, os portugueses levantaram por dia menos 32,8 milhões de euros e efetuaram menos 52,8 milhões de euros de compras", face ao registado em igual período de 2019.

Comércio e retalho a cair

Os sectores de atividade com reduções significativas e maior proporção de compras com cartão foram os mais afetados pelo confinamento, e as quais variam entre 16% no comércio a retalho e 97% no alojamento. Restauração e comércio a retalho, foram em termos absolutos os sectores mais afetados, com "reduções de, respetivamente, 354,4 milhões de euros e 316,3 milhões de euros face ao transacionado com cartão no período homólogo".

Cartão contactless a subir

E muito embora tenha havido uma redução generalizada do uso de cartões de pagamento, o Banco de Portugal sublinha que "as compras online e as compras com recurso à tecnologia contactless continuaram a registar crescimentos significativos em abril de 2020". As compras com a tecnologia contactless aumentaram 44% em número e 123% em valor face a abril de 2019, à boleia do facto de o limite máximo dos pagamentos com cartão contactless ter subida para 50 euros, para facilitar e incentivar o pagamento com este tipo de cartão que não exige a marcação de código.

No total das compras realizadas com esta tecnologia de fevereiro (antes do aparecimento do primeiro caso de covid-19 em Portugal) para abril verificou-se uma subida de 11,6% para 17,4% em abril e em particular no sector do comércio a retalho

Também as compras online registaram a " tendência de subida" em sites de comerciantes portugueses. Aumentaram 21% em número de operações e 53% em valor no mês de abril. Contudo, as compras "efetuadas em sites estrangeiros reduziram 18% em valor e cresceram 10% em quantidade".

Eletrodomésticos, frutas e legumes lideram compras

Face ás compras com cartão realizadas no comércio a retalho, em abril, verificou-se uma subida de 209% na aquisição de eletrodomésticos (mais 44,7 milhões de euros) e 109% no subsector das frutas e produtos hortícolas (um aumento de 6,6 milhões de euros), destaca o Banco de Portugal. E dá uma explicação para isso: "a evolução verificada no sector das compras de eletrodomésticos terá resultado, numa primeira fase, de um crescimento na aquisição de equipamentos domésticos para apoio ao período de confinamento, como sejam frigoríficos e aspiradores, e, numa segunda fase, de computadores e impressoras, para permitir a realização de teletrabalho e o acesso ao ensino em casa".

Em termos absolutos a maior subida registou-se nos supermercados e hipermercados - mais 14,9 milhões de euros. A maior descida no abastecimento de combustível: 67,6 milhões de euros, por razões óbvias da fase de confinamento para combater a propagação ao coronavírus, depois da declaração do estado de emergência que se manteve em abril.

O fecho das lojas, nomeadamente de vestuário para adultos que em abril de 2019 era "o segundo mais relevante no comércio a retalho", registou em abril de 2020 uma "quebra de 99%, passando de 155,3 milhões de euros para apenas 1,6 milhões de euros".