Leïla Slimani é uma mulher entre mundos, literalmente. Franco-marroquina, viveu em Rabat antes de se mudar para Paris aos 17 anos. Estudou Ciência Política e foi uma corajosa jornalista até 2011, quando optou pela literatura. Anteriormente, escreveu dois romances, ambos já publicados pela Alfaguara: “No Jardim do Ogre”, uma história de compulsão sexual, e “Canção Doce” (Prémio Goncourt 2016), sobre uma babysitter assassina. “O País dos Outros” venceu o Prémio Madame Figaro. Primeiro volume de uma trilogia inspirada na história da família de Slimani, fala de uma mulher e dos seus próximos em Marrocos na década anterior à independência do país. A violência crescente em fundo não pode deixar de ter efeito indireto, e por vezes direto, na vida dos protagonistas. Numa cultura onde é comum esbofetear as mulheres desde muito novas para lhes ensinar a submissão enquanto ainda é tempo, um dos praticantes mais cruéis e empenhados desse horror é Omar, um jovem terrorista que pratica violência ‘preventiva’ contra a sua irmã mais nova. Selma tem o azar de ser muito bonita, portanto, uma fonte potencial de problemas. Que o resultado das bofetadas seja o oposto do pretendido não surpreende, mas obviamente quem acabará por pagar será mesmo a jovem.
O irmão mais velho de ambos, Amine, é um soldado marroquino ao serviço do exército francês em 1944, quando conhece uma jovem francesa em Mulhouse. Aos 19 anos, com um desejo de aventura intensificado pelos constrangimentos da guerra, Mathilde é atraída por esse homem bem-parecido e musculado que tem mais oito anos do que ela. Os dois casam e vão viver para uma quinta próxima de Meknés, que o pai de Amine lhe deixou. O progresso lento da agricultura nessa quinta, a distância entre os sonhos grandiosos do casal e a dura realidade que o terreno ingrato lhes impõe serão o reflexo, e até certo ponto a origem, do que se passa nas suas vidas.
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