Cultura

John Berger. A arte explicada ao cidadão comum

9 Maio 2021 17:01

Luís M. Faria

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Jornalista

A presente antologia de ensaios de John Berger foi publicada originalmente em 1972

ulf andersen/getty images

Uma importante coleção de ensaios de John Berger, um britânico que via a arte como ela era e de onde vinha, e ajudou a explicá-la

9 Maio 2021 17:01

Luís M. Faria

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Jornalista

Pintor, romancista, argumentista, poeta e crítico, John Berger (1926-2017) tornou-se conhecido do grande público em 1972 através de uma série de televisão da BBC, “Ways of Seeing” (“Modos de Ver”), que propôs uma nova forma de ver a arte, ajudando muita gente pouco familiarizada com ela a abordar obras e conceitos antes reservados para os estudiosos e especialistas. O êxito da série teve continuidade num livro homónimo ainda hoje usado em cursos de arte — um de mais de 20 que Berger publicou no decurso da sua longa carreira. Embora seja autor de oito obras de ficção, incluindo um romance premiado com o Booker em 1972, a parte mais importante da sua obra serão os ensaios, que falam de arte e não só. Descrevê-lo como crítico pode ser exato ou redutor, dependendo de como se entender esse termo. Se ele se referir a alguém que faz uma avaliação puramente estética ou técnica das obras de arte, não se aplica a Berger. Se entendermos a crítica como uma prática intelectual que situa a arte num contexto histórico-intelectual, associando-a a questões de natureza social, filosófica e moral inescapáveis a cada momento, faz sentido no caso de Berger, que se interessava tanto por arte como por política e jamais conseguiu ou tentou separar as duas coisas. Podemos discordar da ligação que faz entre a pintura e a ideia de apropriação, assim como podemos discordar, por exemplo, da teoria de que todo o sexo é poder (para referir uma ideia que não é de Berger). Mas é inegável que existe um elemento de poder no sexo, como existe algo de apropriação no modo como um quadro clássico aspira a representar a realidade, ainda que eventualmente numa perspetiva fantástica, “encerrando-a” em limites definidos que podemos considerar simbolicamente limitados pela moldura.

A presente antologia de ensaios, publicada originalmente em 1972, contém peças da década anterior sobre assuntos que vão desde arte e artistas até animais em zoos, manifestações de massas, a situação na Checoslováquia em 1968 e determinados cenários de natureza aparentemente banal onde o autor põe a funcionar os seus poderes de observação. Berger lembra Orwell não apenas pela linguagem direta e por relacionar arte e socialismo — na sua incapacidade básica de aceitar que o mundo pode continuar como está e que a arte é alheia a isso — mas também pela disponibilidade em se colocar em jogo, observando-se a si mesmo com um bom grau de lucidez. Uma disponibilidade comum a outros grandes ensaístas em séculos anteriores, britânicos (Hazlitt, outro ensaísta brilhante que vem da pintura, é um paralelo óbvio) e não só.