Cultura

Os poemas em linha recta de Raul de Carvalho. Por Pedro Mexia

1 Maio 2021 21:09

O prolífico e desigual Raul de Carvalho fica um pouco prejudicado quando lido sequencial e integralmente

arquivo a capital

Reencontro com Raul de Carvalho, um poeta mais diverso do que nos lembrávamos, numa antologia lançada no final de 2020, ano em que se assinalou o centenário do seu nascimento

1 Maio 2021 21:09

Há duas boas maneiras de ler Raul de Carvalho (1920-1984): livro a livro ou em antologia. Acontece que nem todos os livros individuais (alguns deles belos objectos gráficos, muitos em edição de autor) se encontram facilmente, nem em alfarrabistas, e o mesmo se diga de uma antologia de 1975. Existe, é verdade, um compacto volume editado pela Caminho em 1993 que reúne a obra publicada (um segundo volume com inéditos nunca chegou a sair); mas, sem negar a importância óbvia desses poemas reunidos, é notório que o prolífico e desigual Raul de Carvalho fica um pouco prejudicado quando lido sequencial e integralmente. “Lâmpadas Acesas para Aumentar o Dia” traz-nos por isso o reencontro com um poeta tão obsessivo mas mais diverso do que nos lembrávamos, dos poemas breves, musicais, alguns apenas dísticos, aos mais longos e discursivos, odes como a éluardiana “Serenidade és minha” (o seu poema mais conhecido), epigramas, aforismos, e até experiências ocasionais, como os poemas ao jeito beat. É uma boa introdução a este estimulante poeta “menor” que nos deixou, aliás, uma teoria sobre a poesia em tom menor, que definiu como “uma estética da banalidade” (título de um livro de 1972) e como “escrever em linha recta”.

A colectânea de estreia, “As Sombras e as Vozes (1949)”, com que se inicia esta antologia, anuncia logo um propósito, com o poeta a afirmar que canta “o que amo”, “o que odeio”, “o que sou”. É uma poesia directa nos seus desígnios, mesmo quando indirecta na expressão. O que desencadeia os poemas são “gestos, confissões, encontros”, memórias também, mas os factos ficam quase sempre rasurados, de modo que só temos consequências, reacções (“coisas ditas de perfil”, para usar uma curiosa formulação tomada de empréstimo a Saint-John Perse). Raul de Carvalho escreverá mais tarde que prezava qualidades como a originalidade, a sinceridade, a persuasão, o testemunho, a observação verídica, o recto juízo. E isso demonstra muitíssimo bem que não há qualquer “ingenuidade” nesta poética, porque estamos perante um espontaneísta que escreveu o que queria escrever, como queria escrever, em infindáveis variações sobre aquilo a que chamou “vestígios de nada”.