E de repente tudo tremeu. As bandas deixaram de fazer check-in em aeroportos e hotéis, os técnicos perderam a sua cadeira atrás da mesa que controla o som, as palmas deixaram de se ouvir, a cortina fechou. A primeira e mais cruel consequência da pandemia de covid-19 na música foi o fecho generalizado da componente ao vivo: concertos e festivais de música foram suprimidos ao calendário, gerando ondas de choque numa indústria que até aí girava sobre um pressuposto, o de que uma fatia gigante dos rendimentos dos seus intervenientes (artistas e tudo à volta deles) provém do irrepetível apelo do momento ao vivo, em direto, in loco.
Em sentido inverso, o consumo de música através de streaming cresceu com a reclusão de um ano feito de muito menor mobilidade, e o conceito de live streaming foi ao encontro de novos modelos, tornando-se mais do que uma mera ‘comodidade’. Depressa se passou do tosco e roufenho live de Instagram em que o artista, sozinho, arranha a guitarra e não cobra nada por isso, para apostas tecnologicamente evoluídas prontas a ser patrocinadas ou contratadas por marcas (a única forma de, para já, haver dimensão de mercado) ou com bilhete cobrado à ‘porta’, como fez Nick Cave quando se ‘fechou’ no Alexandra Palace, em Londres, e canalizou uma atuação (neste caso, gravada) primeiro para streaming, depois para cinema e o velho fonograma — isto é, colocando os ovos em várias cestas e cobrando efetivamente por cada ovo vendido. É uma estratégia que, crê-se, não desaparecerá quando voltar a ser possível juntar 50 mil pessoas num campo com um palco ao fundo.
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