“Havia uma noite em Lisboa que deixou de existir”, diz Mariza, vagamente melancólica, no terraço de um restaurante junto ao Tejo. O calendário diz-nos que estamos no outono, mas o sol forte leva a mais popular fadista dos últimos 20 anos a livrar-se do casaco para, enquanto beberica de uma lata de Red Bull, conversar com o Expresso de forma mais confortável. Foi nessa noite desaparecida da Lisboa dos anos 90 que a jornada triunfal de Mariza, nascida em Moçambique em 1973 e a viver em Portugal desde os três anos de idade, começou. “Era uma noite giríssima, com música ao vivo, em que sabíamos que se fôssemos ali íamos encontrar fulano”, recorda. O trajeto da jovem cantora, que então atuava em bares, cantando versões de Whitney Houston ou Gloria Gaynor, passava pelo Rock City, onde viria a conhecer o futuro agente e marido, João Pedro Ruela, e o Berimbar, onde pela primeira vez se cruzou com José Luís Gordo, poeta do fado e marido de Maria da Fé. “Há um dia em que venho de um espetáculo com a minha banda e estavam o Jorge Fernando, o Mário Rainho, que também é poeta e um nome popular do fado, que me conhece desde os meus seis anos, e o José Luís Gordo. Eu entro e diz o Mário Rainho para o José Luís Gordo: ‘Olha que esta miúda canta bem fado.’ E ele olha e diz: ‘Pff, não canta nada! Ouvi dizer que ela canta umas americanadas e umas inglesices.’ E eu olhei para ele e disse: ‘Você sabe de onde eu venho? Eu venho da Mouraria.’” Acicatada pela desconfiança do já então veterano, Mariza perguntou a um seu amigo angolano, Nelo Carvalho, se sabia tocar algum fado. “Sei ‘A Rua do Capelão’, mal e num tom. E eu: ‘Vai nesse tom.’ Quando acabo de cantar, o Zé Luís estava em lágrimas, a dizer: ‘Ofereço-te um lugar na minha casa a cantar quando quiseres.’ E eu, que sou muito pespineta, disse: ‘Na sua casa? Nunca lá hei de pôr os pés’”, recorda, divertida. Naturalmente, Mariza havia de ir ao Sr. Vinho, a casa de fados de Maria da Fé e José Luís Gordo, numa noite que ficou na memória de todos os presentes. Mas não sem a insistência do já então namorado João Pedro Ruela: “Ele perguntou-me: ‘Não queres ir lá espreitar? Nunca fomos a uma casa de fados.’ E eu: ‘Não quero nada ir para essas coisas de turistas.’ E ele: ‘Vamos experimentar, eles fazem lá umas favas e eu adoro favas.’” Ainda que bem recomendada, por José Luís Gordo e também por Jorge Fernando, Mariza foi recebida no Sr. Vinho com alguma desconfiança. “A Maria da Fé disse: ‘Eu já conheço muita gente e não quero ser madrinha de ninguém, não me chateiem o juízo.’ E eu fiquei calada. Cantou o elenco, eu a ver tudo... nunca tinha estado numa casa chique, só ia cantar às coletividades, às taberninhas.” A convite de Jorge Fernando, e já depois das favas jantadas, Mariza foi prestar provas. “Quando acabo de cantar, a Maria da Fé diz: ‘Pronto! Eu, como tua madrinha...’”, conta, entre risos. Terá sido nesta noite, tinha a artista “23 ou 24 anos”, que o fado se inscreveu a letras maiúsculas no seu destino. Apaixonada pelo género desde criança, altura em que ouvia fado em casa e também na taberna dos seus pais, a Zalala, na Mouraria, na juventude cantou soul, funk e disco sound em bares e clubes, mas a canção nacional acabaria por regressar com estrondo à sua vida e a um aparelho vocal que todos elogiam sem reservas. Mas não é esse o único ‘segredo’ do impressionante sucesso da mulher de ‘Ó Gente da Minha Terra’.
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