Cultura

Mariza. História de uma cantadeira

14 Novembro 2020 20:48

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Solar Mariza fotografada a 29 de outubro, junto ao Tejo, em Lisboa. A fadista mais popular da sua geração completa 47 anos em dezembro

Está a lançar um disco novo, no qual canta exclusivamente Amália, e a celebrar 20 anos de percurso. Amigos, companheiros de trabalho e a própria Mariza contam como começou esta história de ambição, fé e vitória

14 Novembro 2020 20:48

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

“Havia uma noite em Lisboa que deixou de existir”, diz Mariza, vagamente melancólica, no terraço de um restaurante junto ao Tejo. O calendário diz-nos que estamos no outono, mas o sol forte leva a mais popular fadista dos últimos 20 anos a livrar-se do casaco para, enquanto beberica de uma lata de Red Bull, conversar com o Expresso de forma mais confortável. Foi nessa noite desaparecida da Lisboa dos anos 90 que a jornada triunfal de Mariza, nascida em Moçambique em 1973 e a viver em Portugal desde os três anos de idade, começou. “Era uma noite giríssima, com música ao vivo, em que sabíamos que se fôssemos ali íamos encontrar fulano”, recorda. O trajeto da jovem cantora, que então atuava em bares, cantando versões de Whitney Houston ou Gloria Gaynor, passava pelo Rock City, onde viria a conhecer o futuro agente e marido, João Pedro Ruela, e o Berimbar, onde pela primeira vez se cruzou com José Luís Gordo, poeta do fado e marido de Maria da Fé. “Há um dia em que venho de um espetáculo com a minha banda e estavam o Jorge Fernando, o Mário Rainho, que também é poeta e um nome popular do fado, que me conhece desde os meus seis anos, e o José Luís Gordo. Eu entro e diz o Mário Rainho para o José Luís Gordo: ‘Olha que esta miúda canta bem fado.’ E ele olha e diz: ‘Pff, não canta nada! Ouvi dizer que ela canta umas americanadas e umas inglesices.’ E eu olhei para ele e disse: ‘Você sabe de onde eu venho? Eu venho da Mouraria.’” Acicatada pela desconfiança do já então veterano, Mariza perguntou a um seu amigo angolano, Nelo Carvalho, se sabia tocar algum fado. “Sei ‘A Rua do Capelão’, mal e num tom. E eu: ‘Vai nesse tom.’ Quando acabo de cantar, o Zé Luís estava em lágrimas, a dizer: ‘Ofereço-te um lugar na minha casa a cantar quando quiseres.’ E eu, que sou muito pespineta, disse: ‘Na sua casa? Nunca lá hei de pôr os pés’”, recorda, divertida. Naturalmente, Mariza havia de ir ao Sr. Vinho, a casa de fados de Maria da Fé e José Luís Gordo, numa noite que ficou na memória de todos os presentes. Mas não sem a insistência do já então namorado João Pedro Ruela: “Ele perguntou-me: ‘Não queres ir lá espreitar? Nunca fomos a uma casa de fados.’ E eu: ‘Não quero nada ir para essas coisas de turistas.’ E ele: ‘Vamos experimentar, eles fazem lá umas favas e eu adoro favas.’” Ainda que bem recomendada, por José Luís Gordo e também por Jorge Fernando, Mariza foi recebida no Sr. Vinho com alguma desconfiança. “A Maria da Fé disse: ‘Eu já conheço muita gente e não quero ser madrinha de ninguém, não me chateiem o juízo.’ E eu fiquei calada. Cantou o elenco, eu a ver tudo... nunca tinha estado numa casa chique, só ia cantar às coletividades, às taberninhas.” A convite de Jorge Fernando, e já depois das favas jantadas, Mariza foi prestar provas. “Quando acabo de cantar, a Maria da Fé diz: ‘Pronto! Eu, como tua madrinha...’”, conta, entre risos. Terá sido nesta noite, tinha a artista “23 ou 24 anos”, que o fado se inscreveu a letras maiúsculas no seu destino. Apaixonada pelo género desde criança, altura em que ouvia fado em casa e também na taberna dos seus pais, a Zalala, na Mouraria, na juventude cantou soul, funk e disco sound em bares e clubes, mas a canção nacional acabaria por regressar com estrondo à sua vida e a um aparelho vocal que todos elogiam sem reservas. Mas não é esse o único ‘segredo’ do impressionante sucesso da mulher de ‘Ó Gente da Minha Terra’.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.