Coronavírus

Recolha de plástico e de papel para reciclagem caiu 58% na região de Lisboa (no resto do país a queda foi menor e até há casos de aumentos)

19.05.2020 às 22h29

Confinamento, fecho de restaurantes e dos serviços e suspensão do sistema porta-a-porta na cidade de Lisboa contribuíram para uma quebra acentuada na recolha de resíduos para reciclagem no mês de abril. Recolha porta-a-porta em Lisboa deve ser retomada no início de junho “se houver condições”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

ESTELA SILVA

Abril de 2020 registou uma quebra significativa na recolha dos resíduos de plástico/metal e de papel/cartão na região de Lisboa, quando comparada com o mesmo mês de 2019. A recolha destes dois tipos de resíduos caiu 58% e 58,5%, respetivamente, de acordo com os dados da Valorsul, a que o Expresso teve acesso.

Os números dizem respeito à região de Lisboa (que inclui os municípios da Amadora, de Loures, de Odivelas e de Vila Franca de Xira) mas o principal contribuinte para este decréscimo acentuado na recolha seletiva é a realidade de Lisboa. A justificar estes números está uma menor produção de resíduos (uma redução de 900 para 600 toneladas diárias de lixo recolhido), devido ao quase desaparecimento dos turistas, e ao fecho de restaurantes, bares, lojas e outros serviços decretados pela pandemia. Mas também (e sobretudo) ao facto de a Câmara de Lisboa ter decidido suspender a recolha porta-a-porta dos resíduos recicláveis - que se estendia a 65% da cidade.

A justificar esta decisão esteve "a necessidade de garantir a proteção da saúde pública e dos trabalhadores envolvidos nas operações de recolha e tratamento de resíduos e, em simultâneo, controlar os fatores de disseminação da doença e contágio por covid-19”, esclarece Filipa Penedos. A diretora do departamento de Higiene Urbana da Câmara diz que “a prioridade foi a saúde das pessoas”.

A autarquia viu-se na contingência de "evitar a aglomeração de equipas nos balneários", desfasando turnos de modo a manter a distância social e ter gente na reserva, seguindo as recomendações da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR).

Para contornar estes obstáculos estão a fazer obras nos balneários usados pelo pessoal da higiene urbana e Filipa Penedos espera que "a partir de 1 de junho estejam reunidas todas as condições de segurança" para retomarem a recolha porta-a-porta de plástico, vidro e papel. O objetivo é recuperar as quebras de reciclagem e enfrentar a nova "pandemia de descartáveis" que se avizinha.

O fecho de restaurantes, bares, cafés, lojas e outros serviços, e a quase inexistência de turistas, também contribuíram para estas quebras, sobretudo visíveis na redução da quantidade de embalagens de vidro colocadas nos vidrões (menos 27,8%) ou na de biorresíduos (menos 88%) que provinham sobretudo das cantinas e da restauração.

Cresce recolha para valorização no Oeste

Ao contrário do que se verificou em Lisboa, nos outros 14 municípios da região Oeste onde a Valorsul é a empresa responsável pelo tratamento e valorização dos resíduos sólidos urbanos (Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Odivelas, Peniche, Rio Maior, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras) houve um crescimento na recolha de resíduos seletivos para reciclagem ou valorização — mais 12,5% no vidro; mais 5,9% no papel/cartão; e mais 23,4% nas embalagens de plástico e metal.

“Estes crescimentos na região Oeste estão relacionados sobretudo com o aumento da rede de ecopontos feito no último ano e não necessariamente com a pandemia”, explica Joana Xavier, porta-voz da Valorsul. “O facto de não ter sido interrompido qualquer serviço de recolha na região Oeste também permitiu uma maior estabilidade nas quantidades recolhidas nos ecopontos.” Isto apesar de o total de resíduos recolhidos (entre indiferenciados e seletivos) ter caído 9,7% relativamente a abril de 2019.

Quebra ligeira na recolha de resíduos no país

Olhando para os dados alargados do universo da empresa EGF — que controla quase dois terços dos resíduos urbanos produzidos no país, entre os quais os da Valorsul — verifica-se um decréscimo pequeno comparando o mês de abril de 2020 e o de 2019. Os fluxos de vidro e de papel caíram 4% e 9% respetivamente. Porém, no de plástico houve um crescimento de 2%, o que se deve ao facto de as pessoas estarem mais em casa, irem mais ao supermercado e fazerem a separação do lixo que produzem.

Já olhando para os números do primeiro trimestre de 2020 e de 2019, os dados da empresa do grupo Mota-Engil (que trata o lixo doméstico de 174 municípios) indicam que houve um ligeiro decréscimo na recolha de lixo comum e um aumento de 16% na recolha seletiva (trifluxo) em março face ao período homólogo.

Segundo a porta-voz da empresa, Ana Loureiro, “os centros de reciclagem nunca pararam, apesar de alguns dos fluxos terem de ficar de quarentena durante um certo período”. E apela para que as pessoas continuem a fazer a separação dos resíduos e que tenham em atenção que as máscaras, as luvas ou os lenços descartáveis são para serem colocados no lixo indiferenciado e não nos ecopontos.