O CDS quer o ‘chiquismo’? O CDS quer um chefe
25.01.2020 às 22h14
RUI DUARTE SILVA
Francisco Rodrigues dos Santos pode ser um sucesso porque o espírito do tempo é, à direita, de populismo. E ele é o 'Tea Party' português. Mas pode ser um pequeno passo para o abismo. A direita gosta de chefes e ele é um chefe. O CDS está sedento de liderança
Vinte anos depois de Paulo Portas, o CDS quer voltar a ter um chefe e em Aveiro apareceu-lhe um. Francisco Rodrigues dos Santos parece um chefe, fala como um chefe, e se os partidos gostam disso, a direita ainda gosta mais. João Almeida apareceu no congresso a tentar parecer um chefe, fez discursos de quem quer ser chefe, mas representa o fim de um ciclo, não a esperança de uma nova fase. Ganhasse quem ganhasse, este era sempre o congresso do fim de um longo período. O facto de ‘Chicão’ ganhar já ao poderoso ‘portismo’, não significa que se perdesse não ganhasse depois. O CDS teve o pior resultado de sempre, está ameaçado de perder relevância no ecossistema político - o que acontece às espécies antes de se extinguirem - e quando estão com sinais vitais em alerta os partidos reagem assim. Umas vezes, os partidos viram-se para dentro, para os candidatos que dizem o que os militantes e convertidos querem ouvir; outras vezes, voltam-se para o candidato com maior potencial lá fora, não interessa o que defende ou como o defende.
E o líder da Juventude Popular representa as duas formas de alimento político: a) diz o que os militantes querem ouvir e b) fá-los pensar que tem maior tração lá fora. É isto que está em causa no CDS, antes das discussões ideológicas, da pureza das ideias ou dos valores fundacionais. Isso é muito interessante, mas secundário. O partido esteve no poder e agora está remetido à irrelevância. E a irrelevância mata.
Francisco Rodrigues dos Santos tem uma linguagem mais do que combativa, bélica. É emotivo e projeta emoções. Não vai à procura de votos ao centro, mas espera que o povo de direita o procure a ele. Resta saber se são mais do que os 4% de Assunção Cristas. É a primeira vez que o CDS está apertado numa tenaz entre um PSD (nos mínimos mas resiliente) e dois pequenos partidos à direita. Cumpre-se a regra de Giovanni Sartori na Ciência Política: quando os sistemas partidários se fragmentam, os extremos crescem, e quando os extremos crescem arrastam os centros consigo. Os extremos não se tocam, tocam no centro. E o Chega está a tocar no CDS.
Com a escolha de Francisco Rodrigues dos Santos, o partido faz uma opção arriscada. Mas o risco de morrer de repente com ‘Chicão’ ou em agonia com Almeida parece ser indiferente para o povo da direita presente em Aveiro. Filipe Lobo d’Ávila, o candidato da voz moderada que insistiu na “responsabilidade” - mas são valores que um partido em transe não valoriza -, deu a entender que o CDS pode perder a “credibilidade”. É a grande prova do líder da JP. “O CDS é muito melhor do que nós vimos hoje”, concluiu Ávila, mas os partidos são sempre piores do que podiam ser na realidade.
Um CDS acantonado no seu reduto “tribal”, como lhe chamou António Pires de Lima, é um dos perigos de uma liderança de Francisco Rodrigues dos Santos. Até agora líder da JP, o sucessor de Cristas representa a tribo de uma direita que não irá muito mais longe do que a base eleitoral que votou na anterior líder. Concorrer com o Chega à direita não será um fator de competitividade do partido, mas de radicalização. Fechar o CDS nos chamados “valores fundacionais”, seja lá o que isso for, dificilmente fará abrir o partido a novos mercados eleitorais. Paulo Portas tentava partir de uma base conservadora, democrata-cristã e liberal para apontar a nichos específicos ou apelava ao voto útil para moderar o PSD no poder. Agora, com o PSD sem potencial eleitoral e com o lastro da governação será mais difícil fazer o mesmo.
Assunção Cristas explicou (e bem) que fazer oposição depois de ter sido Governo em tempos como os da troika exigia responsabilidade. Com ‘Chicão’ essas contas ficam a zeros. Pode fazer a oposição que quiser, com a linguagem que quiser. Não está preso a esse passado.
António Pires de Lima atirou ao calcanhar de Aquiles de Francisco: a linguagem. Quando foi ver ao dicionário o que significava “quadrilha” na moção ‘chiquista’, desmontou o estilo de RGA do candidato a chefe. Estranhamente ingénuo, entregou-se à pateada quando do seu púlpito senatorial cedeu ao paternalismo e disse que era preciso dar tempo ao líder da JP para “apurar a sua cultura democrática”. Se queria ajudar João Almeida, ao sujeitar-se aos apupos e à rejeição do congresso com estes argumentos, criou a argamassa de que Francisco Rodrigues dos Santos precisava. Se Almeida tem um amigo em Pires de Lima, então não precisa de inimigos. O jovem de 31 anos respondeu-lhe com uma frase antiga de Manuel Monteiro, tão antiga quanto a juventude dele: “A idade é um problema que certamente passará com o tempo”. Como ele próprio disse, “diabolizar” o ‘chiquismo’ não adianta. Pode funcionar ao contrário.
Apesar da crispação, Francisco Rodrigues dos Santos mostrou que não é ingénuo e não caiu no logro de responder com uma escalada de tom no segundo discurso. Mesmo que fosse artificial, apelou à união. “O partido não pode perder a cabeça”. E depois uma frase que pode ser todo um programa: “Esta é a nova direita para Portugal”. A expressão tem conotações, e é aqui que ‘Chicão’ pode ganhar vantagens: cavalgar o espírito deste tempo.
Numa época em que os chamados populismos estão a ganhar em todo o lado, o espírito do tempo é mais ‘Chicão’ do que Almeida: quando Francisco disse que dispensava a mediação da imprensa, fez lembrar Donald Trump (também vai falar ao mundo sobretudo pelas redes sociais?). Manuel Monteiro é que falhou o timing em 25 anos… O partido regressa ao Partido Popular na forma com os alegados valores fundacionais do CDS no bolso. O espaço político da direita parece curto para tanta gente. Mas não sabemos se nascerá aqui um novo fenómeno popular e populista de sucesso, ou se o CDS está à beira o abismo e a dar o passo em frente.
Há dois anos, viu-se em Lamego durante uma madrugada que havia um poder desconhecido a emergir no CDS. É irónico que os tão bem formados e modernos quadros do ‘portismo’, habituados a obedecer a Portas, não tenham criado um chefe (ou uma chefe) e estejam agora ameaçados pelo ‘chiquismo’. A direita nesta sala em Aveiro só vê ali um líder que a possa chefiar.