No dia em que completou 80 anos, confinada e isolada em casa, Maria José Vale colocou rolos no cabelo para ficar mais bonita, preparou um bolo no forno, acendeu uma vela e cantou os parabéns a si própria. É melhor ser alegre que ser triste, ensina a canção de Vinicius de Moraes. Maria José sabe disso e tem procurado resistir como pode à solidão e à angústia. “Foi uma cena muito bonita a que fiz no aniversário. Dou sempre a volta por cima. Desenfio-me. Mas como estou muito solitária, tenho quebras de humor, mudanças súbitas de comportamento, sinto tristeza, ansiedade. Dou por mim a falar alto sozinha, a revoltar-me com as notícias na televisão. O sono também não anda bom. Por vezes acontece ficar acordada a noite inteira no computador, a escrever no Facebook, textos e poemas para não me sentir tão encurralada. Agora nem posso ir ao meu médico de família, para ter uma conversinha com ele e me queixar destas instabilidades, parece que mudo de personalidade.”
Maria José escapou há um ano de Lisboa para a sua casa de campo, na pequena aldeia de Cambarinho, em Vouzela, distrito de Viseu, para se pôr a salvo do vírus, mas a experiência está a ser bem mais longa e penosa do que esperava. Há muito que não vê os três netos, os filhos, os maiores amigos. “Estou muito aperreada de estar aqui fechada. Sinto-me a explodir. Logo eu que gosto de viajar pelo mundo. Se não fosse esta porcaria já estaria no lugar que mais gosto, em Dahab, no Egito, num resort hippie, rodeada de jovens, onde volto a ter 18 anos. Mas sinto que envelheci 20 anos por causa desta bronca. E o meu cérebro anda tão esquisito, não pára.”
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