Voluntária há 27 anos no Banco Alimentar (BA), recebe-nos à boca do armazém de Lisboa, na Avenida de Ceuta, para explicar como cada um daqueles blocos de produtos se organiza antes de ser despachado para instituições de solidariedade; e, desde março, também para as Juntas de Freguesia, tendo em conta o agravamento das necessidades sociais, devido à pandemia e ao confinamento — situação que fez com que a presidente do BA de Lisboa criasse, no passado dia 19 de março, a Rede de Emergência Alimentar. Um cartão à cabeça de cada bloco de alimentos identifica por escrito, mas também por cores, a instituição a que se destina e o dia em que esta o virá buscar: “Como temos alguns voluntários com dificuldades de leitura, criámos códigos cromáticos”, diz Isabel Jonet. Os produtos organizam-se consoante as necessidades, explica durante uma caminhada que contorna as rotas dos carrinhos de paletes, que em grande corrupio fazem seguir os alimentos até ao cais da distribuição: “Não enviamos pizzas a instituições que dão apoio a ciganos, porque este alimento não é aceite culturalmente, ou maionese a uma instituição que dá apoio a bebés... Seria um desperdício.” Grande parte do sucesso na luta contra o desperdício alimentar, objetivo com que foi criado o BA, resulta de uma oferta feita à medida do freguês. Quanto maior for o ajustamento entre a oferta e a procura, menor será o desperdício. Uma otimização de recursos que só se consegue através de um trabalho de proximidade e com um levantamento fino das necessidades das instituições. Barómetro das carências sociais e económicas do país, mas também dos excedentes de produção, o BA alimenta as vítimas desta nova crise. A pandemia levou à destruição de um tecido económico e social feito de equilíbrios muito frágeis. Ao contrário das crises anteriores, não são os sobre-endividados que recorrem cada vez mais ao BA. São sobretudo aqueles que precisavam de ter dois empregos para sobreviver e que, atualmente, nem um têm — com a agravante de não poderem encontrar um terceiro noutro lugar. Mais do que a carências, é à fome que o BA tem de responder neste momento. E não é só do lado da procura que há surpresas. A oferta também é surpreendente. Pela primeira vez, certos produtos são doados ao BA. Isabel Jonet pega numa embalagem com ervas: “Salicórnia do Algarve. Não faço ideia do que isto é. Mas é mais um excedente provocado pela contração económica. Como os restaurantes fecharam, isto acabaria no lixo. Nunca recebemos tanta farinha como nestes meses e nunca tivemos produtos como chá ou ananás em calda. Este ano recebemos ovos da Páscoa!” Iniciava-se assim uma conversa que só acabaria, no final da tarde, do outro lado da Avenida de Ceuta, na sede da Entrajuda, espaço no qual se acumulam produtos totalmente novos, que acabariam no lixo se não tivessem sido doados à instituição criada por Jonet há 16 anos. Detergentes caros, resmas de papel, eletrodomésticos, fatos a estrear, sapatos, pijamas brancos imaculados, de marcas conhecidas, impressoras, computadores, material escolar totalmente novo, brinquedos, decorações para festas de aniversários de crianças, livros... “É o maior banco de economia circular da Europa”, anuncia a mulher que odeia desperdício e com quem comecei a conversar três horas antes sobre religião e convicções políticas.
Duas fotografias com Papas [dentro de uma vitrina]. É inevitável começar a conversa por estas fotografias. Como é que se consegue ter dois Papas no currículo?
Quando se vive muito tempo. Não tenho dois, tenho três. Também conheci o Papa João Paulo II, mas não tenho nenhuma fotografia com ele; e ainda me lembro do Papa Paulo VI, de quem a minha mãe gostava imenso. Conheci o Papa Bento, em Fátima, numa audiência com as instituições de solidariedade social em que participei como presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares; e até tive a sorte de ser uma das pessoas que foi receber a bênção. E conheci o Papa Francisco, em Roma, enquanto presidente da Federação Europeia de Bancos Alimentares.
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