Sociedade

Mais sono, menos droga, mais medicação: o que os esgotos revelam sobre o confinamento

17.05.2020 às 17h18

Estação de Tratamento de Águas da EPAL, na Asseiceira em Tomar

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Os lisboetas acordam às 7h30 e deitam-se às 23h30. Consomem menos cocaína, ecstasy e anfetaminas. Tomam muitos antidiabéticos, muito paracetamol e ibuprofeno

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

As horas a que nos levantamos ou deitamos, os medicamentos que tomamos, as drogas ilícitas que ingerimos ou até os vírus de que podemos ser portadores podem ser detetados nos esgotos das nossas cidades. E não faltam estudos a comprová-lo. Numa era em que cada vez mais aplicações de telemóveis surgem como big brothers que observam cada passo que damos, a sociologia do esgoto (disciplina científica que tem vindo a ganhar peso) permite analisar hábitos, comportamentos e consumos diários de comunidades ou aglomerados populacionais sem nos invadir a casa.


Foi com base na análise de hidrogramas de caudais do sistema de tratamento de esgotos que a engenheira Conceição David da empresa Águas do Tejo Atlântico conseguiu comparar as rotinas dos portugueses entre a fase pré e pós-pandemia e perceber que as pessoas andaram a acordar duas horas mais tarde do que era hábito durante a fase de confinamento imposta pelo estado de emergência. E que, agora com o início do desconfinamento, “a tendência é retornar ao ‘antigamente’”, voltando a alvorada a aproximar-se das 7h30, ainda assim com mais meia hora de sono. As variações nos caudais do sistema controlado por esta empresa multimunicipal (que abrange 23 concelhos e um total de 2,4 milhões de pessoas) também permitiram verificar a que horas, em média, se deitam ou almoçam e como a falta de atividade noturna nas cidades manda as pessoas mais cedo para a cama, pelas 23h30.


“As águas residuais são um espelho de tudo o que consumimos e de como nos comportamos”, atesta Eugénia Cardoso. A coordenadora do laboratório da Águas do Tejo Atlântico lembra que “o que é excretado através da urina e das fezes vai parar às grandes estações de tratamento sem controlo, o que transforma as ETAR numa ferramenta de enorme potencial ao nível epidemiológico e de estudo dos comportamentos e hábitos de uma determinada população”.


Consumo de drogas diminui

O que se encontra nos esgotos também serve de “alerta precoce” para novas tendências no consumo de drogas ilícitas. O Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (que tem sede em Lisboa) usa as amostras recolhidas nas principais ETAR de cidades europeias para perceber esta realidade. O último relatório — “Perspectives on drugs wastewater analysis and drugs: a european multi-city study”, divulgado em março — permite verificar uma redução do consumo de drogas como a cocaína, o ecstasy (MDMA) ou as anfetaminas em Lisboa, em contraste com um aumento generalizado noutras cidades europeias. Em 2018, Lisboa ocupava a 13ª posição no ranking de consumo de cocaína; em 2019 desceu para a 22ª entre 68 cidades de 23 países. A alteração da posição tem mais a ver com o aumento das quantidades registadas nos esgotos de outras cidades europeias, já que o consumo diário de cocaína apenas baixou de 454,5 miligramas para 453,3 mg/ por mil pessoas. Também o consumo de ecstasy e de anfetaminas baixou na capital portuguesa (de 49,4 mg/dia para 40,5 mg/dia em relação à primeira; e de 5,2 para 3,2 mg na segunda).


O Observatório europeu começou a fazer estes estudos em 2011, encontrando na análise das águas residuais uma “ferramenta de monitorização do uso de drogas”. Não se sabe quem as consome, mas sim que quantidades andam a circular e com que características. O relatório de 2020 revela, por exemplo, que “a pureza” da cocaína tem aumentado e que, tal como o ecstasy, é sobretudo consumida entre sextas e segundas-feiras nas grandes cidades da Europa Ocidental e do Sul, e menos nas do Leste. Já as anfetaminas são mais consumidas no Norte e Leste da Europa. Também é possível verificar que os consumos de drogas ilícitas estão associados a cidades com mais estabelecimentos de diversão noturna e universidades.


Antidiabéticos são os mais consumidos

Já no campo das drogas lícitas, as análises feitas a águas residuais permitiram perceber quais os fármacos mais usados pela população e as respetivas quantidades. Estudos envolvendo entidades como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a Faculdade de Farmácia, a Águas do Tejo Atlântico ou a EPAL permitiram perceber que os antidiabéticos são os mais presentes nas águas residuais das ETAR de Lisboa, seguidos dos analgésicos e dos antipiréticos (paracetamol e ibuprofeno). E que os menos abundantes são os betabloqueadores, andando lá pelo meio os anti-inflamatórios não esteroides (diclofenac) e os antibióticos.


O problema é que, enquanto uns são facilmente removidos pelos tratamentos aplicados nas ETAR, “outros precisam de novas soluções para que não se tornem prejudiciais para o meio ambiente onde são descarregados”, alerta a coordenadora do projeto Life Impetus, Maria João Rosa, que envolveu o LNEC e mais sete entidades. É preciso estar vigilante perante as substâncias que andam pelas águas dos rios ou das albufeiras, onde é captada água para consumo humano, já que ainda não estão fixados limites legais para as quantidades de contaminantes que chegando ao esgoto, deste não deviam passar.