Violência doméstica: 128 vítimas fugiram para casas-abrigo durante o confinamento. Conheça a história de Raquel
16.05.2020 às 21h39
O estado de emergência não aumentou as queixas de violência, mas agravou os casos de risco. Só em abril, saíram de casa 108 mulheres e 20 crianças, a maioria vítima de abusos prolongados. O confinamento com o agressor ampliou-lhes o risco de vida
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O estado de emergência tinha começado há menos de uma semana quando Raquel fugiu de casa com o filho, já maior. A presença quase permanente do marido no apartamento suburbano foi só o empurrão final para sair de uma vida conjugal de 32 anos cheia de safanões — e tareias, murros na cabeça, violações, ameaças de morte, tentativas de homicídio, em casa e no meio da rua. Nunca apresentou queixa, calou tudo. A pandemia apanhou-a já no limite das forças, e imaginar-se fechada com o seu agressor por tempo indeterminado era inconcebível. Não por ter medo — “eu já não tinha medo” —, mas por incapacidade mental e física de suportar aquela presença, de aguentar mais dor e opressão. Estava exausta. Deixou de saber escrever, “as palavras não saíam bem”, como se já não conseguisse juntar letra com letra; deixou de saber cozinhar, “os pratos não saíam bem”, como se tivesse esquecido a lógica que une os ingredientes. Deixou de tomar banho, de se cuidar, cortou o cabelo — talvez assim ele deixasse de a procurar. “Violou-me tantas vezes, até no dia do velório da minha mãe, e no do funeral.”
Dois dias antes de bater com a porta, Raquel deu por ela com uma faca de cozinha na mão, a maior que tinha. Não sabe quanto tempo esteve assim, à espera que o marido voltasse da horta onde, graças a Deus, se entretinha a gastar algum do muito tempo livre de funcionário público em isolamento preventivo. Ultimamente ela não pensava noutra coisa: “Tinha de matá-lo, tinha de matá-lo. Estava fixada naquilo. Tinha-lhe tanto ódio, tanto nojo.”
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