Sociedade

Unidade W+. “Eu não faço revolução, eu sou a revolução”

27.02.2020 às 16h47

Em Lisboa há 'uma casa' que acolhe todos os dias jovens de risco, com grande vulnerabilidade psicológica, uns sinalizados como delinquentes, outros profundamente depressivos, vítimas de maus-tratos, violência doméstica, abuso sexual ou bullying. Chama-se Unidade W+, é um serviço gratuito da Santa Casa da Misericórdia, e entre os projetos que desenvolve conta-se o Teatro Terapêutico, que leva adolescentes com percursos de vida difíceis a lidarem com as suas fragilidades em palco. O Expresso assistiu aos ensaios da peça “Escada acima... Escada abaixo”, um conjunto de monólogos da autoria dos próprios atores. Contra a vergonha pelo passado que carregam, Fabiana, Alex, Bibi e Arlete gritam “eu não faço a revolução, eu sou a revolução”

Helena Bento

Helena Bento

Reportagem e texto

Jornalista

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Reportagem e vídeo

Jornalista

Não é fácil convencer Fabiana a falar. Dizemos-lhe que são poucas perguntas, além disso são simples, sim, temos mesmo de filmar, mas são apenas uns minutos, e o espaço é bonito, um camarim que acabámos de descobrir lá em baixo atrás de uma porta aberta por acaso, pequenino, acolhedor, com um espelho a toda a largura, emoldurado com luzes brancas fluorescentes. Tínhamos descido as escadas por curiosidade, por necessidade também, era mesmo de um espaço assim que precisávamos, vazio, sem ninguém para incomodar, e eis que encontrámos, uma maravilha. Fabiana ouve a descrição até ao fim e sorri, complacente, mas o que precisa mesmo é de apanhar ar. Quem intercede por nós é a psicóloga com quem tem consultas na Unidade W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e que encena a peça de teatro que acabou de ser ensaiada e será apresentada dentro de alguns dias no Festival Mental. E um milagre acontece.

Isto do teatro começou cedo para Fabiana Saraiva, de 18 anos, mais cedo até do que o acompanhamento na unidade onde se dá apoio psicológico gratuito e que a jovem frequenta “há imensos anos”, é já “quase parte da mobília”. Fez teatro amador em vários grupos até aos “12, 13 anos”, depois teatro de revista que diz ter adorado ao ponto de ter percebido que era isso que queria fazer “para o resto da vida”. Pode-se ser “qualquer pessoa”, ou, no caso de Fabiana, a pessoa que já era, mas ainda não sabia como ser. “Não acordas de manhã e pensas: ‘hoje apetece-me ser transsexual ou homossexual e vou sê-lo’. Quer dizer, podes descobrir isso com o passar dos anos, nunca teres pensado no assunto, mas comigo não foi assim. Eu tenho a sensação de que ser transsexual foi algo que nasceu comigo.” Mas foi o teatro que ajudou a descobrir quase tudo, e a aceitar. “Se não fosse o teatro, eu não saberia nem metade das coisas que hoje sei sobre mim”, e o mesmo serve para a Unidade W+, que existe desde 2003. “Decidi: é isto que sou e que quero ser, e não vou ignorar isso. Quero viver.” É como se “tivesses sido outra pessoa antes de seres quem és realmente”, diz Fabiana, e não é que antes de ser integrada na unidade e no grupo de teatro não tivesse já tudo isto na cabeça, “mas era demasiado nova e ingénua para perceber”.

Fabiana ao centro, durante a apresentação da peça “Escada acima... Escada abaixo”

Fabiana ao centro, durante a apresentação da peça “Escada acima... Escada abaixo”

D.R.

Fabiana conta que foi a médica que a acompanhava na altura numa outra unidade da Santa Casa da Misericórdia que a aconselhou a ter apoio psicológico. No início não lhe pareceu que fosse uma “ajuda por aí além”, na verdade “era um frete que fazia”, mas ao mesmo tempo sabia “que tinha mesmo de ser” e aceitou isso e foi “dando espaço” e as “coisas acabaram por tornar-se mais fáceis”. “Ela falou-me desta unidade por causa do meu processo de transição que, como viria a perceber depois, é algo que dá cabo da cabeça à brava”. Dá? Se dá, “é preciso uma boa base, uma estrutura que aguente contigo, que não desapareça, alguém que se preocupe realmente e que esteja lá para que quando o mundo desaba, não desabe totalmente”. A descoberta interior tem isto: “Começas a conhecer-te cada vez melhor e depois queres pôr tudo para fora, mas não sabes como. Ou então até pões mas de forma errada, e fazes coisas que te magoam e aos que te rodeiam. Eu sei porque já passei por isso, já me feri muito, tentei magoar-me, não fisicamente, mas psicologicamente. Depois percebi que não conseguia passar por isto sozinha, mas até me aperceber disso foi um longo caminho.” E pejado de interrogações, diz ainda Fabiana, que está à espera de ser submetida a uma cirurgia no contexto do seu processo de transição. “A mudança é o que mais se quer, mas mete medo, faz pensar que tudo deveria ser diferente”, e também isto: “Porque é que não posso ser eu e a escolher?”. “Queremos que tudo seja para agora, para já, mas é um processo longo, demorado, que tem de ser feito com calma, porque ao fim e ao cabo não tem reverso, não há volta atrás.”

O teatro ajudou-a a perceber isso também, e ainda mais a lidar com “a sociedade em si”, tarefa “não tão fácil assim”, mas facilitada pela certeza de que é possível “utilizar a arte para mudar mentalidades, mentes fechadas”. E o manifesto que Fabiana lê na parte final da peça “Escada Acima… Escada Abaixo” (apresentada em novembro de 2019) e que é da sua autoria, é precisamente sobre isso. Há uma frase que fica, que ainda não assentou, “eu não faço a revolução, eu sou a revolução”. “O manifesto é sobre ser-se uma mente inquieta e conhecer outras mentes inquietas, sobre descobrir, estar em constante procura, em constante força.” Porque força “é o que mais se precisa para se ir lidando com tudo o que vai acontecendo à volta”, porque “haverá sempre quem olhe de lado, e não compreenda”. “Cabe-me a mim fazer um esforço e pôr-me no lugar dessas pessoas. Obviamente que olhar de lado e julgar não é certo, mas eu também entendo que o façam porque de facto trata-se de algo fora do normal. E as pessoas têm medo disso.”

O milagre de que falámos há pouco, logo no início do texto, foi obra da psicóloga Sónia Santos, responsável pelo núcleo da adolescência da Unidade W+ (há outros dois núcleos, o das crianças e o dos adultos). A psicóloga e psicoterapeuta, que trabalha na unidade integrada numa equipa multidisciplinar de que fazem parte outros psicólogos, uma médica de medicina geral e familiar, um psiquiatra, dois enfermeiros, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social e um animador sócio-cultural, usa a expressão mais bonita para descrever a peça de teatro, cujo guião, explica, foi escrito pelos adolescentes que fazem parte do grupo. “É o monólogo das suas almas”, diz. “A peça foi construída de forma diferente em comparação com as outras. Desta vez, convidámo-los a visitarem-se interiormente e a construir monólogos baseados nas suas maiores dificuldades ou fragilidades”. Daí também o título da peça, sugestivo do movimento típico da adolescência, para cima e para baixo, ondeando, “numa verdadeira montanha russa de emoções”.

“Quando eu cheguei ao W, não falava. Com o teatro consegui abrir-me”

No seu monólogo, Alexandre, de 19 anos, fala sobre a família, ele que conta ter sido abandonado aos três anos pelo pai, que “nunca quis muito” que ele nascesse, que foi vítima de bullying na escola durante anos e que começou a ser acompanhado na unidade de apoio psicológico depois de um “amigo muito próximo” ter-se enforcado e ter sido Alex, como lhe chamam por aqui, a encontrá-lo. “Quando cheguei ao W, não falava. Ficava encolhido a um canto, com o teatro conseguir abrir-me e fazer o que tenho de fazer sem me preocupar tanto com os que os outros pensam”, diz Alexandre, que trabalha numa loja de restauração de arte em Benfica, em Lisboa. Maria, de 17 anos, aliás “Bibi”, como prefere ser chamada, fala na peça, como quem poderia falar no dia a dia, sobre como é importante para ela ter “likes” nas redes sociais. “Sinto uma grande necessidade que as pessoas vejam o que eu publico no Instagram, Facebook e Twitter, que saibam quem eu sou.”

Alex no topo da escada enquanto representa o seu monólogo

Alex no topo da escada enquanto representa o seu monólogo

Este grupo de teatro não é o primeiro que “Bibi” frequenta, e já o frequenta “há um ano”, mas é onde se sente melhor. “É aqui que tenho pessoas em quem confio, na escola não consigo estabelecer a mesma ligação às pessoas.” E Arlete, de 21 anos, haveria de falar dali a minutos do grupo de teatro de forma semelhante. “Cheguei a fazer teatro profissional mas acabava por ficar muitas vezes de fora porque supostamente não me enquadrava.” Dá o exemplo de uma peça de um autor russo em que não houve papel para lhe atribuir, porque a sua pele “é mais escura do que a das mulheres russas” e os seus cabelos “não são avermelhados como os delas, são negros”. E de outra peça em que “tiveram de inventar uma personagem propositadamente” para ela, uma “presidiária”, porque não se “encaixava”.

E isso fê-la pensar: “Se ainda mal comecei neste mundo do teatro e já me dizem que não me enquadro, então o melhor é nem sequer tentar.” E não tentou pela via profissional, até porque sente que seria “avançar com um pé” e não ter quem a “agarrasse caso caísse”, mas também não desistiu. Continua a fazer teatro no grupo do W, porque aí sabe que “é aceite” independentemente da cor da pele e do cabelo e das ondas no cabelo, e de tudo. “Aqui não há essa coisa de enquadrar ou não enquadrar.” Arlete teve a ajuda de Sónia e de Catarina Luz, também psicóloga na unidade e encenadora da peça, para escrever o seu monólogo, porque o texto que tinha escrito antes, sozinha, e que era sobre a família, era “demasiado forte”. “Estava muito triste quando escrevi aquilo e percebi que ensaiá-lo e usá-lo na peça era tocar na ferida, e isso iria doer-me.”

Continua a ser sobre a família o seu monólogo, e também sobre a revolução que diz nem sempre conseguir ser, porque se esconde, “por vergonha”. “Sei que todos nós aqui somos revoluções, mas ao mesmo escondemo-nos por baixo da revolução, por sermos quem somos, por termos vergonha do nosso passado.”

“O teatro é um veículo fantástico de transformação terapêutica”

Uma das “filosofias” da unidade é “criar respostas cirúrgicas às necessidades da população”, daí a criação de grupos terapêuticos e “muito vocacionados para as fragilidades dos nossos utentes”, como o de teatro, que surgiu em 2005, explica Sónia Santos. E porquê o teatro, ou mesmo as artes plásticas, a fotografia, o cinema, onde o grupo também se aventura com frequência? O W costuma participar no 48h Film Project, onde são dadas 48 horas para fazer uma curta-metragem, num projeto que aconteceu pela primeira vez em 2001 nos EUA e atualmente realiza-se em mais de 130 cidades. “A arte, e a arte dramática em particular, é um veículo fantástico de transformação terapêutica e tem esta capacidade de fazer com que os adolescentes possam trabalhar e transformar o seu mundo interno e as suas fragilidades de uma forma muito leve e com uma distância de segurança, através da personagem”, diz a psicóloga. Quanto ao cinema, e àquele projeto em concreto, “permite que os adolescentes façam algo com princípio, meio e fim, e que potenciem a sua auto-estima”. Ao mesmo tempo, “sensibiliza-se a sociedade civil”, que é necessário, muito necessário, ou não fossem estes jovens “vistos como um grupo à parte”, marginal. De repente, eles veem-se aplaudidos, já não olhados de lado, e isso fá-los sentir “integrados”, que finalmente pertencem.

O monólogo de Bibi

O monólogo de Bibi

Mais do que falar sobre os problemas destes jovens — e são muitos os problemas e “carências múltiplas” com que chegam à unidade, reencaminhados pelas comissões de proteção de crianças e jovens (CPCJ) ou pelos tribunais, e vindos na sua maioria de contextos de “grande violência doméstica” ou “abandono”, pois “muitos nem sequer sabem quem são os seus pais”, explica Isabel Queiroz de Melo, diretora da unidade — Sónia Santos prefere decretá-los como “heróis e heroínas com uma capacidade assombrosa de transformar aquilo que eram as suas vidas até aqui chegarem”. E isso, acrescenta, nota-se “quando de repente entra alguém novo no grupo de teatro ou na unidade e vem a olhar para baixo, vestido de negro, sem falar ou sequer cumprimentar, e ao fim de cinco, seis meses, de terapia individual ou de grupo, já aparece com uma roupa mais colorida e olha de frente e adere aos vários projetos e vai à escola regularmente e sente que esta é a sua casa”. Casa é também a palavra usada pela diretora, Isabel Queiroz de Melo, para se referir à unidade. Isso e “família” e mais ainda: “A unidade funciona como uma âncora na vida das pessoas, como um espaço de pertença, e se olharmos à nossa volta vemos que não há muitos assim.”

A Unidade W+, localizada na Rua Duque de Palmela, recebe e dá apoio psicológico gratuito a adolescentes de todas as freguesias da cidade de Lisboa. Está aberta nos dias úteis, entre as 9h00 e as 20h00.