A Beleza das Pequenas Coisas

Cláudia Raia: “Bolsonaro não conhece os artistas, a cultura está a ser esfaqueada, mas nunca acabará. Nós artistas somos resistência”

24.01.2020 às 11h52

A atriz brasileira Cláudia Raia, conhecida pelos portugueses das telenovelas desde os anos 80, é uma voz crítica do atual Governo de Bolsonaro, embora deixe claro que não é de esquerda e não votou em Lula da Silva. “O Brasil não está a passar por uma ditadura, só que quase... Regredimos muito. A cultura é vista com maus olhos e os artistas são vistos como bandidos. Então — como disse uma cantora brasileira — vivam sem arte, num breu. Ninguém consegue.” De volta a Portugal com a comédia romântica “Conserto para Dois”, onde contracena com o marido Jarbas Homem de Mello, a atriz revela que, apesar dos elogios pela beleza e boa forma física aos 53 anos, incomoda muitos homens. “Uma mulher empoderada como eu assusta os machistas.” Uma conversa para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista

Jornalista

Joana Beleza

Joana Beleza

Edição áudio

Pedro Nunes

Pedro Nunes

Fotografia

Fotografo

Cláudia Raia trouxe mais de vinte malas para viver os próximos dois meses e meio em Portugal. E o monumental cenário do seu espetáculo “Conserto para Dois”, em cena no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 23 de fevereiro, e que recria em palco um cruzeiro de luxo rumo à Antártida, demorou um mês até chegar a Portugal. Ou seja, como diz o ditado, a atriz e o marido, o ator Jarbas Homem de Mello, “mudaram-se de armas e bagagens.” Até porque depois de Lisboa seguem com o espetáculo para o Porto, Braga, Coimbra, Aveiro e Figueira da Foz.

Muitos dos leitores e ouvintes conhecerão a atriz Cláudia Raia das inúmeras personagens que representou na televisão desde os anos 80. Quem não se lembra da sensual e destravada Tancinha, de “Sassaricando”, ou da ‘bailarina da coxa grossa’ de “Rainha da Sucata”? Mas a poderosa Cláudia Raia dos palcos e da televisão nasceu e construiu-se muito antes. A história artística começa cedo. Aos sete anos, Maria Cláudia (nome de batismo) insistiu com a mãe, a bailarina Odette, para a deixar ver escondida o espetáculo musical dos Dzi Croquettes, um grupo de teatro transgressivo dos anos 70 que tinha como mestre o bailarino e coreógrafo Lennie Dale, responsável pelas coreografias do filme “New York, New York”, com Liza Minneli. Foram eles uma das primeiras e mais fortes inspirações para Cláudia se estrear em musicais.

[Nota: se não conhecem os Dzi Croquettes, googlem, espreitem no Youtube, foi até realizado um documentário sobre este grupo que é obrigatório ver. Nem que seja pelos novos tempos nebulosos que se vivem no Brasil - de um certo retrocesso na cultura e liberdade de expressão - onde importa ter memória. E importa recordar grupos de contra-poder do passado como os Dzi Croquettes que usavam a irreverência e a subversão em palco para criticar a ditadura.]

Aos 13 anos, Cláudia foi estudar dança nos EUA no “American Ballet Theater” e para se sustentar serviu à mesa e dançou em shows de samba na ponta dos pés numa boite chamada... Cachaça.

Depois também dançou na Argentina, mas foi num musical, no Brasil, que chamou a atenção de Jô Soares, que fascinado com o seu talento a convidou para o mítico programa de humor “Viva o Gordo”. E é aí que começa a dar nas vistas com a rábula “Vamos Malhar” e passa a ser a Cláudia Raia que todos conhecem até hoje.

E daí para as telenovelas, foi um passo...de dança. Estreou-se em Roque Santeiro, onde era a escultural “Ninon”, uma dançarina de cabaret. Mas demorou meses até conseguir dizer uma curta fala, feita de duas singelas palavras. Nesta conversa, Cláudia recorda esses tempos em que foi tratada como uma mulher-objeto, onde foi vítima de machismo, e as batalhas que teve de travar até que a considerassem uma atriz e não apenas um corpo bonito.

Atualmente, Cláudia Raia é uma das atrizes mais completas e prestigiadas do Brasil, e ainda hoje encara o teatro musical como a sua casa e o seu espaço natural, onde tudo começou. Há quem a veja como um desaforo, pela sua atitude afirmativa, de ‘mulher-macha’, como ela chega a dizer. “E isto pela minha força, pelo empoderamento, poder aquisitivo, e não depender de ninguém. Sou a nova mulher de 50 que é a antiga mulher de 30. Luto pela beleza em qualquer idade. Pelo ‘ageless’ [sem idade]. É essa a minha bandeira. Luto pela liberdade. Porque é que uma mulher que não produz mais óvulos 'morreu' [para a sociedade]? Isso é extremamente machista."

Neste episódio, Cláudia Raia fala de como reencontrou o amor, depois da separação do ex-marido Edson Celulari, de como está a lidar com a passagem do tempo e dos seus próximos projetos. E ainda nos dá música.

Isto e muito mais para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”.

Desta vez a edição áudio é da Joana Beleza. E o genérico desta temporada é uma criação original do músico Luís Severo.

Mantemos o desafio a todos os ouvintes para que enviem as suas opiniões, sugestões, histórias e comentários para o seguinte email: abelezadaspequenascoisas@impresa.pt

Voltamos para a semana. Até lá, pratiquem a empatia e boas conversas!

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