Se o filme for bom, não precisamos de compreender os diálogos. Façam este exercício: vejam um Kurosawa sem legendas; imaginem que “Ran” é um bailado e que “Kagemusha” é um filme mudo. Vão compreender tudo, porque a linguagem fundamental está nos gestos, no rosto e no timbre dos atores, está no ponto de vista da câmara, está na música e no cenário. No final do “Paths of Glory”, Kubrick ilustra esta empatia quando coloca uma rapariga alemã a cantar em alemão para um grupo de soldados franceses; os soldados não percebem uma palavra, mas comovem-se com a humanidade do inimigo. Esta linguagem não conceptual e anterior às palavras é a base da nossa humanidade partilhada. E eu julgo que a tal crise da linguagem verbal, ou seja, a crescente incapacidade para ouvirmos as palavras e os argumentos dos outros é uma consequência do desprezo por esta linguagem não verbal.
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