Só três ou quatro dias após a morte de Marcelino da Mata, o militar “mais condecorado da História” é que surgiram os elogios fúnebres, quase todos de jovens articulistas de direita que viram nele o “herói português” que contrariava a ideia de um regime racista e colonialista anterior à democracia. Foi também pelo contumaz Mamadou Ba que chegou a acusação de que Marcelino não seria mais do que um criminoso de guerra, um traidor do seu povo. Foi o que bastou para, novamente, à sua volta, Marcelino Mata ter uma guerra sem quartel. Agora nas redes sociais. Que eu tenha reparado, quem o liderou no terreno nada disse, embora ainda o pudesse ter feito. A realidade que se viveu no teatro de operações da Guiné-Bissau escapa a relatos homéricos sobre a invasão a Conacri e esquece a situação desesperante dos quartéis portugueses junto às fronteiras, isolados pelos mísseis soviéticos e pelas minas chinesas. Marcelino da Mata é um fruto da necessidade de reagir à guerra não convencional. Por isso mesmo, utilizando técnicas de “contraguerrilha”. Fazia o que a tropa branca não conseguia nem queria fazer. Foi um combatente excecional com 2400 operações, muitas de grande violência. É um herói nacional e um herói nacional construído por Spínola, que sabia que a Guiné estava perdida e apostou na “africanização das tropas especiais”. E, se formos mesmo honestos, além de “herói” é um “criminoso de guerra”, dependendo do modo que quisermos observar: se olharmos de longe, conceptualmente, ou de perto para ações individuais com olhos de hoje. Na Guiné, os seus inimigos do PAIGC, antigos combatentes, há meia dúzia de anos, ainda se lembravam dele. Não havia rancor. Tinha sido a guerra.
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