Opinião

As vítimas

30.05.2020 às 9h29

O Nuno ainda não sabe, mas morrerá em 2021, porque aquela dor estranha não foi analisada na consulta de oncologia, que foi adiada vezes sem conta

O Zé definha em duas prisões que se sobrepõem como duas esferas concêntricas, o Parkinson dentro da prisão domiciliária. A Maria envelhece num ritmo supersónico, porque tem de estar fechada em casa a tratar sozinha do Zé. O Mário passa fome, porque é um dos 237 mil miúdos que depende da escola para ter uma refeição completa. A Vanessa não bebe leite, porque é uma das 430 mil crianças que depende do leite escolar. O António voltou ao álcool, porque o vácuo do #ficaremcasa retirou-lhe os pontos de apoio do método dos Alcoólicos Anónimos. A Mari’Antónia é espancada e violada todos os dias, porque está fechada na sua masmorra doméstica com o agressor, o marido. Ao lado, a Joana está fechada em casa com um pai violento e talvez abusador. O Carlos morreu, porque depois da trombose teve medo de ir ao hospital. A Dona Carmo morreu, porque o cancro galopou na ausência de tratamentos e consultas. O Filipe suicidou-se, depois de nova falência. O Bruno morreu, após um ataque cardíaco súbito que se seguiu a novo despedimento. O Jacinto suicidou-se, porque é demasiado orgulhoso para pedir ajuda, prefere a morte à humilhação. O sr. Agostinho suicidou-se no lar, pois já não aguentava mais a solidão.

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