Hungria e Hong-Kong
28.05.2020 às 12h28
Antes do dinheiro, quero dignidade da UE. Com os EUA paralisados na stasi trumpista, esta é a oportunidade para a Europa recuperar e liderar o espírito democrático de 89: expulsar a Hungria e enfrentar finalmente a China na questão dos direitos humanos
Estamos soterrados num discurso técnico, ora sanitário, ora económico, que esquece os fundamentos morais da sociedade, a começar na liberdade. Este vazio apolítico é visível na UE. A Europa não pode ser sinónimo exclusivo de dinheiro.
A UE tem de ser uma força política e moral; nesse sentido, temos de registar o silêncio de morte da UE e das capitais europeias em relação à ditadura húngara e em relação aos democratas de Hong-Kong. A expulsão da Hungria da UE é tão ou mais importante do que o pacote de ajuda pós-covid. É uma questão de princípio. A tecnocracia da UE não é um bem em si mesmo, é um invólucro de aço à volta dos princípios republicanos. A UE poderia, pelo menos, pressionar a Hungria através dos fundos de coesão, que representam uma parte significativa do pib húngaro. Mas nem isso faz. Alguém ainda se lembra da pressão sobre a Áustria no final do século XX?
Da mesma forma, é inaceitável o silêncio em relação à democracia de Hong-Kong. Querem um confronto justo com a China? Aqui o têm. O silêncio do Ocidente inteiro (Trump também está calado) sobre Hong-Kong é um sintoma do nosso mal-estar ocidental. A China é uma ditadura mortífera e orwelliana; a China usou a globalização sem respeitar grande parte das regras da globalização, a China está a esmagar uma democracia com quase oito milhões de pessoas. Vamos ficar calados?
Antes do dinheiro, quero dignidade da UE. Com os EUA paralisados na stasi trumpista, esta é a oportunidade para a Europa recuperar e liderar o espírito democrático de 89: expulsar a Hungria e enfrentar finalmente a China na questão dos direitos humanos. Mas isso pode implicar uma guerra económica? Essa guerra ou divisão económica já estava em cima da mesa antes da covid, foi reforçada pela covid.
Tenhamos um pouco da coragem dos nossos pais e avós.