Têm medo da ciência
25.05.2020 às 14h59
A narrativa sufocante do #ficaremcasa não respeita os factos e a ciência, não quer saber que, segundo os testes serológicos, só 0,18% dos infetados fica em risco (risco, não necessariamente morte), que só a imunidade de grupo garante a vida normal; além disso, esta narrativa, que quer muito a vacina, é em si mesmo o principal obstáculo à obtenção dessa mesma vacina
Desde o início da pandemia, tem sido claro que a esmagadora maioria dos governos e dos média têm medo de seguir a conhecimento até ao fim. Dizem que temos de seguir a ciência, mas, na verdade, não têm o estômago para criarem uma mensagem política e mediática com base nos factos conhecidos. A ciência, para os bem-pensantes, só interessa quando confirma preconceitos, medos ou causas. Quando não valida essas ideias, a ciência é colocada de parte ou é retalhada numa lógica de cherry picking.
Os governos não têm coragem para repetir aquilo que os cientistas dizem: este é, sem dúvida, um vírus relativamente bonzinho, e não há razão para a esmagadora maioria da população ficar com medo. É como diz Pedro Simas, virologista, no Expresso de sábado: “Vejo medo na sociedade. Medo de olhar para os factos. Medo de usar o conhecimento. Medo de agir de acordo com o conhecimento." Isto é visível no excesso da quarentena que parecia e parece uma resposta a um vírus que mata qualquer um de qualquer maneira, o que não é verdade: o vírus acelera a morte de pessoas que já estavam em idade avançada bastante adoentada. É grave, sim, é uma ameaça, sim, precisamos de precaução, sim, mas não é o fim do mundo e teremos sorte se esta for a nossa pandemia.
O desrespeito pela ciência é ainda visível na incapacidade para falarmos com a lógica da ciência e da natureza, a imunidade de grupo. Boa parte das pessoas olha para a "imunidade de grupo" como uma espécie de assassínio. Portanto, a natureza é assassina? A lógica natural é assassina? Então a mãe natureza não é boa e doce? Sem vacina, não temos outra hipótese senão a imunidade de grupo através da precaução. Não é possível isolarmos a história humana da história natural.
O desrespeito pela ciência vê-se ainda na questão da vacina. A pressão coletiva para a vacina não respeita os tempos da ciência; descobrir uma vacina não é o mesmo que fazer um chapéu. Há protocolos que exigem tempo. E, este domingo, ficámos a par de outro desrespeito pela ciência: os cientistas de Oxford que estão a tentar descobrir a vacina recordaram o óbvio, a quarentena diminuiu a progressão da imunidade de grupo e, por outro lado, torna quase impossível a realização de testes para a vacina, pois o vírus está a desaparecer. Ou seja, o #ficaremcasa deseja a vacina, mas é o precisamente o #ficaremcasa que torna difícil ou impossível encontrar pessoas para a realização dos testes necessários da vacina.
O desrespeito pela ciência vai continuar noutro ponto. Os testes serológicos estão a dizer que o vírus está muitíssimo mais espalhado do que se pensava e que, lá está, é relativamente pouco letal. Volto a Pedro Simas: “Com base nos dados dos testes serológicos, a proporção estimada de casos clínicos graves e críticos seria de 0,18%, e não 2%." Quem é que vai fazer notícias e #hashtags com estes dados? Poucos ou ninguém.
A narrativa sufocante do #ficaremcasa não respeita os factos e a ciência, não quer saber que, segundo os testes serológicos, só 0,18% dos infetados fica em risco (risco, não necessariamente morte), que só a imunidade de grupo garante a vida normal; além disso, esta narrativa, que quer muito a vacina, é em si mesmo o principal obstáculo à obtenção dessa mesma vacina. Tenham coragem para ouvir a ciência.