Estamos numa encruzilhada histórica
30.04.2020 às 7h12
Vivemos um momento histórico, uma verdadeira encruzilhada que oferece poucas alternativas: ou aproveitamos esta crise para aprender com os erros, e para equilibrar a nossa relação com os outros, com a natureza, e com a tecnologia, ou caminharemos para a decadência civilizacional.
A ideia é pouco original, mas não é demais repeti-la: o mundo não voltará a ser o mesmo depois da covid-19. Vivemos um momento histórico, uma verdadeira encruzilhada que oferece poucas alternativas: ou aproveitamos esta crise para aprender com os erros, e para equilibrar a nossa relação com os outros, com a natureza, e com a tecnologia, ou caminharemos para a decadência civilizacional. E a responsabilidade é de todos, e não apenas “deles”, essa abstração empregue para designar lideres políticos, atores económicos, opinion makers, cientistas e outros intelectuais.
A História ensina-nos que o progresso não é linear nem continuo. No princípio do século XX, os nossos avós pensavam que a humanidade tinha atingido o zénite civilizacional, situação que nada faria retroceder. Ainda em 1913, acreditava-se que as rivalidades entre as potências seriam resolvidas pelos velhos métodos diplomáticos e, se necessário, com uns quantos conflitos localizados e pontuais. Um ano depois, os principais estados europeus estavam envolvidos numa guerra generalizada, que provocou milhões de mortes, resultou no colapso de três impérios, e abriu caminho para a institucionalização de experiências totalitárias.
Também, a História demonstra-nos que, na maioria das vezes, os seus atores não têm consciência da transcendência do momento que estão a viver. Em 1453, ninguém relacionou a queda de Constantinopla como o fim da idade média (aliás, o conceito só fez sentido à posteriori, quando a consciência de um novo tempo permitiu qualificar a idade anterior de “média”). Igualmente, a multidão que tomou a Bastilha em julho de 1789 não tinha noção que estava a dar inicio à revolução política e social que lançou os alicerces da idade contemporânea.
O mundo não irá, pois, mudar radicalmente logo após o fim desta pandemia. Contudo, a Covid 19 não deixa de ser um fenómeno com impacto global, e que comprova a fragilidade da nossa existência. É, seguramente, um marco de transição para um futuro incerto e dependente de diferentes variáveis. Primeiro, dependente do evoluir da nossa relação com os outros: teremos novamente um mundo sustentado por dois polos, uma superpotência democrática e outra totalitária? E será que o modelo multilateralista que se afirmou após a II guerra mundial vai prevalecer, ou os estados voltarão a privilegiar as relações bilaterais? A economia, será por fim norteada por padrões éticos, ou continuará tendencialmente a sê-lo por critérios amorais? Vamos passar a evitarmo-nos, e a contactar preferencialmente de forma virtual? E quanto à Europa, será capaz de falar a uma só voz, e reafirmar-se como um espaço de liberdades, de justiça social, de cultura, e de ecologia? O futuro da União Europeia também está condicionado pela resposta a esta crise.
A forma como encararmos a natureza é outro ponto cardeal da nossa encruzilhada. Será que nem esta pandemia conseguirá convencer os céticos do impacto negativo do homem no meio ambiente e nos outros seres vivos? E os grandes países poluidores, como a China, a India, e a Rússia, vão continuar a reger-se por padrões exclusivamente economicistas, ou vão assumir compromissos sérios, num enquadramento multilateral, para a redução do seu impacto ambiental? E os recursos naturais do planeta, passarão a ser explorados de forma sustentável?
Por fim, não poderemos deixar de refletir sobre a nossa relação com a tecnologia. Vamos usá-la de forma harmoniosa, e para melhorar as condições de vida das populações, sobretudo a sua educação, saúde, e bem estar? Ou, então, esta será empregue como forma de controlar os cidadãos, e ponto de partida para a emergência e consolidação de estados policiais? Numa frase, iremos colocar a tecnologia ao serviço da humanidade, ou esta vai subordinar-se à ditadura daquela?
Tal como a queda de Constantinopla, ou a tomada da Bastilha, a covid 19 pode representar um momento simbólico de transição para algo de novo. A queda do império romano do ocidente, em 476, foi também um momento simbólico. No ocidente, marcou a transição da época clássica para séculos obscuros (sobretudo até ao século XII). Por outro lado, o fim da II guerra mundial, a mais devastadora de sempre, marcou, no espaço europeu, o inicio de décadas de progresso e bem estar impares. As grandes crises conduzem a encruzilhadas, e estas reclamam decisões corajosas e sensatas. Opções que tanto podem condenar-nos às “trevas”, quanto conduzir-nos a um novo aperfeiçoamento civilizacional. No mundo democrático, estas opções são uma responsabilidade conjunta dos decisores políticos, e dos cidadãos que os elegem. Ninguém deveria alhear-se deste desafio transcendente. Em democracia, estamos todos no mesmo barco.