O “presidente dos afetos” em tempos de isolamento forçado
24.04.2020 às 8h20
Há mais de 40 anos que Marcelo Rebelo de Sousa é um nome conhecido dos portugueses. Aluno exemplar, professor universitário, jornalista e comentador influente, era geralmente considerado um homem demasiado brilhante para ser levado a sério. Mas, desde que foi eleito, Marcelo tem contrariado ideias feitas. Antes, todos os presidentes tiveram problemas de relacionamento com primeiros ministros: Ramalho Eanes com Sá Carneiro; Mário Soares com Cavaco Silva; Jorge Sampaio com Santana Lopes; Cavaco Silva com José Sócrates. Pelo contrário, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa têm cooperado de forma eficaz. O presidente tem conseguido respeitar a esfera do primeiro ministro, e este não parece importar-se com o protagonismo de Marcelo.
Já por mais de uma vez foi notado como o estilo por vezes popularucho do presidente tem sido um antídoto eficaz contra o populismo. Mas Marcelo Rebelo de Sousa tem sabido ser mais que isso. Demonstra sentido de estado, e exerce um poder verdadeiramente moderador e equidistante. Tem capacidade para esfriar tensões, ultrapassar interesses sectoriais, e olhar para o bem comum. Durante os terríveis fogos de 2017, fez mais que tirar selfies, distribuir beijinhos e afetos: exigiu ação e respostas, e condicionou a sua recandidatura ao sucesso do combate aos incêndios.
Agora, noutra crise do seu mandato, tem estado à altura dos acontecimentos. A sua quarentena inicial levantou interrogações, mas acabou por revelar-se acertada. Foi preferível a arriscar uma situação semelhante à de Boris Johnson que, por não ter sido cauteloso, teve de ser hospitalizado e abandonar a gestão da crise. Esta semana, o presidente voltou a decidir de forma sensata, ao anunciar que vai sem séquito às cerimónias do 25 de Abril na Assembleia da República.
Claro que, mesmo em contingência, Marcelo continua a espalhar “afetos” à sua maneira. Esta semana, não resistiu a telefonar ao enfermeiro português que tratou Boris Johnson, um exagero laudatório absolutamente dispensável. Mas este é um pormenor sem relevância. Genericamente, Marcelo Rebelo de Sousa tem pautado a sua atuação por um otimismo realista. As suas mensagens ao país, no registo contido que a situação exige, foram explicativas e transmitiram confiança. Tão importante quanto isto, o presidente tem ajudado a congregar os portugueses em torno do objetivo comum de minorar o impacto da covid-19. Sem cedências ao facilitismo nem ao dramatismo, o Marcelo dos afetos tem-se revelado o presidente necessário nestes tempos de isolamento forçado.