Opinião

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Adjunto

Telecaos

21.04.2020 às 9h10

Ontem, aos 46 anos, tive o meu primeiro dia de telescola. Nunca pensei escrever esta frase.


O dia correu bem. Correu bem, mas foi um caos. Foi um caos, mas correu bem. Menos um dia para o fim disto…

Verdadeiramente, o terceiro período de escola começou esta segunda-feira para os miúdos. A minha, com sete anos acabados de fazer, iniciava uma forma totalmente diferente de estudar e trabalhar, já ensaiada levemente ao longo das últimas semanas.

Pelas 9 da manhã, telescola. Com aula de português e de leitura. As tecnologias facilitam, e mesmo com um acordar pouco madrugador, nada que um voltar atrás no comando da box não resolva facilmente. Pequeno-almoço tomado (pelo meio com uma entrada na reunião do Expresso do pai, via zoom), vestidinho à maneira com sapatos azuis e collants a condizer, porque o dia é de estreia. Temos telescola. Estávamos prontos.

A aula fez-se bem. A Mosca Fosca gerou sucesso e interesse. As leituras seguintes idem. A professora Isa é muito bem vinda.

Só que entre a aula na tv e a minha reunião matinal do jornal, já tinha chegado por mail o plano diário e semanal de aulas e trabalhos à distância do professor do 1º Ano.

Julgava eu que era telescola e pouco mais. Julgava…

Trabalhos de português. O s, o ss, o ç, o c. As leituras, as frases, as sílabas…
De Matemática. Adição, subtracção, quantos cromos tinha o João e quantos deu ao Quim…
De Estudo do Meio, qual o dia da semana, escreve a hora do dia, diz a estação do ano.
Mais expressão plástica. Pinta o cravo, o que significa para ti liberdade “para mim é ser livre”.

Formação instantânea em professor de escola primária. Método, ritmo, disciplina, pedagogia.

Pelo meio, arrumar a cozinha, preparar o almoço, pôr a mesa, levantar a mesa, arrumar a cozinha, pensar no jantar, “e agora tenho fome quero lanchar”…

Pelo meio do pelo meio, telefonemas, mails, resposta a telefonemas, resposta a mails, ver whatsapps, responder a mensagens, pensar no que vai ser o jornal esta semana, perguntar ao professor para onde envio os trabalhos para correcção.

Pelo meio do pelo meio do pelo meio, respirar fundo e pensar que preciso de respirar fundo mais vezes.

Não me estou a queixar. De todo. Sei como muitos vivem situações bem mais angustiantes e dramáticas que a minha nesta altura. Não perdi o emprego. Não perdi rendimento. Saio de casa muitas vezes para ir para a redacção trabalhar. Mas isto está um caos. Não me queixo, mas está.

Desculpem o desabafo.

Tenho de ir, hoje é o segundo dia da telescola. E hoje há estudo do meio e cidadania.

O que ontem me parecia o caos impossível de gerir, hoje já me parece suportável. É assim o nosso novo normal, em que até há quem pague 40 dólares para lhe ficarem com os barris de petróleo que não há para onde escoar.

Respirar fundo...