Opinião

Reflexões sobre o futuro sem fazer futurologia

17.04.2020 às 11h02

Lourenço Pereira Coutinho

Lourenço Pereira Coutinho

Lourenço Pereira Coutinho (Lisboa, 1973) é doutorado em História Institucional e Política Contemporânea e Investigador Integrado do CHAM- Nova FCSH.

Há dias, dei conta que todos os meus artigos do último mês fazem referência a Donald Trump. Não tenho pretensão que Trump leia o que escrevo mas, pelos leitores e por mim, pensei que seria saudável abrir um parêntesis, e esquecê-lo por uns dias. Acontece que tal é impossível. Apesar de Trump não se comportar como tal, ocupa o lugar de líder informal do mundo democrático e, ainda mais nesta crise, os seus atos têm impacto global. A decisão de cortar o financiamento à OMS, é mais um erro a juntar a outros que tem acumulado desde o início desta crise. Trump precisa de encontrar inimigos e culpados para a sua incompetência, e castiga-os da melhor forma que sabe: com a linguagem do dinheiro.

A OMS tem as suas responsabilidades na má gestão desta crise. Não identificou de imediato a gravidade do problema e, inicialmente, acreditou na narrativa do governo chinês, sem empregar sentido crítico. Mas ao decidir retirar o apoio estruturante e histórico dos EUA a esta organização, Trump só vai beneficiar a China. Assiste-se agora a uma inversão de papéis, com os EUA a afastarem-se das organizações internacionais, e a China a assumir-se como protagonista. Mesmo que um novo presidente dos EUA reverta a situação, a China está a ganhar anos preciosos que a ajudarão a consolidar este ambicionado papel.

Desde Tiananmen, há mais de três décadas (1989), a China iniciou, com pés de lã, um processo que a conduziu de estado pária a superpotência. Caso os Estados Unidos suspendam o seu importante papel de defensor da democracia nas organizações multilaterais, a porta da liderança mundial abre-se a um estado baseado num modelo cínico e autoritário, para quem as liberdades dos cidadãos são um dado acessório. Um mundo norteado por estes valores, é tudo o que não precisamos no futuro.

É unânime que esta crise vai provocar recessão, e terá um profundo impacto político, económico e social. O tempo que vivemos é de muitas interrogações e poucas certezas. Será que a crise vai acelerar a deslocação do eixo da política e economia mundial do atlântico para o pacífico, tal como, no século XVI, este se deslocou do mediterrâneo para o atlântico? E qual o futuro das organizações multilaterais? Será que os estados vão tender a fechar fronteiras, ou a reforçar a cooperação internacional? E qual o real impacto desta pandemia nos hábitos e relações sociais dos cidadãos?

Á escala nacional, a covid-19 também oferece matéria para reflexão. Sobre a real dimensão do seu impacto na economia e na vida das pessoas; sobre o modelo futuro do serviço nacional de saúde; sobre a dependência excessiva da nossa economia do sector de serviços; sobre a organização territorial e as assimetrias regionais, ou sobre a organização laboral e o futuro do teletrabalho. Para já, não é demais referir o empenho extraordinário das entidades de saúde, de segurança, militares, religiosas e de voluntariado; a resposta da sociedade civil, e o sentido de estado dos políticos.

Tal como aconteceu na História recente, com a adesão à CEE, ou o envolvimento na causa de Timor, a generalidade do poder político e dos cidadãos teve capacidade de esquecer divergências, e unir-se em torno de objetivos e causas relevantes para a nossa vida coletiva. Claro que muito não correu bem, mas já começa a ser tempo de esquecer a irritante frase “só neste país”, e deixar as lamentações e complexos de inferioridade. “Neste país”, também temos bons exemplos para mostrar ao mundo.

Como costuma dizer-se, o futuro está ao virar da esquina. E o nosso futuro próximo trás muitas interrogações. Por agora, estas devem conduzir sobretudo a reflexões. As respostas taxativas têm de ficar para mais tarde, pois a futurologia não costuma ser boa conselheira.