Opinião

Lourenço Pereira Coutinho

Lourenço Pereira Coutinho

Lourenço Pereira Coutinho (Lisboa, 1973) é doutorado em História Institucional e Política Contemporânea e Investigador Integrado do CHAM- Nova FCSH.

COVID-19: A Rainha e o Papa

09.04.2020 às 9h51

Ainda parece apenas um pesadelo. De repente, o covid 19 chegou sem bater à porta, disposto a marcar as nossas vidas para sempre. Em tempos de crise, procuraram-se referências nas grandes potências e nos seus líderes, mas estes parecem ausentes.

Na principal democracia do mundo, Trump confirmou (se preciso fosse) que é um homem errático e impreparado. Por sua vez, a China demonstrou todo o seu poderio, disciplina e eficiência. Mas isto não chega para compensar o cinismo do seu regime, a existência de mercados com animais selvagens enjaulados, onde tudo começou, muito menos a negação dos primeiros dias, e o silenciamento de quem primeiro denunciou a epidemia. Já com a epidemia disseminada, os chineses revelaram ao mundo o seu sistema de monotorização através do telemóvel, que permite às autoridades saber de cada passo da vida dos cidadãos. Tal pode ser muito útil para controlar uma pandemia, mas é angustiante pensar na possibilidade de banalização do seu uso, e nas ideias sinistras que, seguramente, desperta em regimes autoritários e gente sem escrúpulos. Uma das grandes batalhas do futuro próximo, é pela manutenção da nossa privacidade e liberdades.

A Europa foi incapaz de atuar em conjunto, o que é uma profunda deceção para europeístas convictos como eu. Esta pandemia tem acentuado divisões e recriminações, em vez de valores comuns. Pior ainda, evidenciou o que já se sabia: um confrangedor vazio de referências de dimensão europeia. Ao menos, Portugal sobressaiu desta mediania. Apesar das limitações em estruturas, equipamentos e materiais, os cidadãos mostraram responsabilidade; os políticos deram tréguas a confrontos e tricas; a solidariedade manifestou-se ainda com mais força; e médicos, enfermeiros, forças armadas, forças de segurança, bombeiros, voluntários e muito mais não se têm poupado no combate ao covid-19.

No mundo ocidental, no meio do vazio de sociedades habituadas a desvalorizar o passado e a olhar apenas para a espuma dos dias, a confiança e sensatez chegaram sobretudo pelas vozes de uma nonagenária e de um octogenário. A rainha Isabel II do Reino Unido fez um discurso marcante à nação. Durante não mais de cinco minutos, agradeceu o empenho de todos os britânicos no combate à pandemia, lembrou especialmente os mais desfavorecidos, para quem a crise tem um impacto ainda maior, e transmitiu o seu orgulho na disciplina e camaradagem dos seus concidadãos. Tão importante como o que disse, foi a forma como o fez. Com serenidade, e com a autoridade de quem, ainda jovem, não se escondeu na II guerra mundial, e que já enfrentou muitas crises políticas, sociais, económicas e familiares.

O octogenário é o papa Francisco I. Impressionou vê-lo avançar à chuva por uma praça de S. Pedro deserta. E marcou ouvi-lo dizer que a pandemia é uma “resposta da natureza” à irresponsabilidade humana, e a um pensamento centrado apenas na economia. O papa relembrou o perigo do populismo sair reforçado deste tempo, e pôs-se do lado dos que podem perder tudo com esta crise: “despedir não é a solução”. Fê-lo com a autoridade de quem se deu aos outros nos bairros mais pobres de Buenos Aires.

Muitos outros têm-nos dado esperança e confiança nestes tempos sombrios: religiosos e agnósticos, gente de esquerda e de direita. Mas, no mundo ocidental, poucos conseguem o impacto de Isabel II e do papa Francisco. Porque, para além das instituições que representam, eles são exemplos de ética, solidez e determinação. É do que precisamos.