O mal menor? Não. A saída do Reino Unido é um desastre
31.01.2020 às 8h52
O movimento que agora o Reino Unido trilha é um tremendo recuo histórico. Depois de décadas a construir uma sociedade em que as fronteiras deixaram de fazer sentido, quando vivemos num mundo em que as barreiras são derrubadas, o caminho é e tem de continuar a ser mais Europa
Sim, estou triste. Muito triste mesmo. Podemos encolher os ombros, olhar para o lado e seguir com a nossa vida. Mas perdermos alguém que era dos nossos é um momento de dor. Sim, os cidadãos do Reino Unido fazem parte da nossa família europeia. Quiseram partir. Abandonam a casa esta sexta-feira, pelas onze da noite. Só podemos esperar que queiram um destes dias voltar, como os escoceses querem. E acolhê-los, então, de braços abertos. Welcome back.
Em 1973 o Reino Unido entrou no clube europeu. Nesse mesmo ano, nascia eu. Treze anos depois, Portugal e Espanha aderiam à CEE.
Hoje em dia, duas décadas entrados no século XXI, é difícil não reconhecer algum desencanto com o processo europeu. A globalização tem tido um impacto grande nos países europeus, os mais ricos do planeta, a integração de quem vem de fora nem sempre tem corrido bem, as perspetivas dos mais jovens são mais sombrias do que eram as dos seus pais quando eram eles próprios jovens.
Mas a Europa, a União Europeia, é muito mais que isso. É o mais fantástico projeto comum construído neste continente e que nos permitiu ter um inédito período de paz, prosperidade e segurança. Só por isso já teria valido a pena mil vezes.
Também eu não gosto do rumo desta União. Também me irritam os eurocratas. Abomino a distância com que se tomam decisões. Mas isso não me impede de olhar para o que construímos e afirmar que sou europeu. Mais ainda quando a Europa está em crise.
Num mundo global e tecnológico e digital, o que menos sentido faz são fronteiras e muros.
O movimento que agora o Reino Unido trilha é um tremendo recuo histórico. Depois de décadas a construir uma sociedade em que as fronteiras deixaram de fazer sentido, quando vivemos num mundo em que as barreiras são derrubadas, o caminho é e tem de continuar a ser mais Europa.
Bem sei que muitos mostram alívio perante o facto de se ter conseguido um Brexit negociado. Pois eu não. O Brexit é sempre mau e é sempre um erro histórico. Em qualquer circunstância.
Com menos Europa e com mais muros voltamos, fatalmente, ao tempo do ‘volta para a tua terra’ que uns energúmenos por cá tentam erigir em programa político.
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