Internacional

“Mais tarde ou mais cedo os espanhóis decidirão se querem que a chefia do Estado seja eleita por fecundação ou por voto democrático”

22.05.2020 às 12h03

Nesta parte da entrevista exclusiva que concedeu ao Expresso, o vice-primeiro-ministro Pablo Iglesias fala sobre as suspeitas que recaem sobre o ex-rei Juan Carlos e defende uma consulta popular sobre a forma de escolher o chefe de Estado. Leia o corpo principal deste trabalho na edição impressa de 23 de maio de 2020

Iglesias deu uma entrevista exclusiva ao Expresso no seu gabinete em Madrid

Manolo Finish

Professor de Ciência Política em Madrid e militante da União de Juventudes Comunistas de Espanha nos anos 90, Pablo Iglesias Turrión tem 41 anos e é um dos quatro vices do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez. Este entregou-lhe a pasta dos Direitos Sociais e da Agenda 2030, isto é, o plano da Assembleia-Geral das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, lançado em 2015 com 17 objetivos e 169 metas para alcançar até ao fim da década, tão ambiciosos como eliminar a pobreza e a fome, proteger o planeta e promover o multilateralismo.

Iglesias criou o Podemos em 2014, a partir dos movimentos contra a austeridade. Depois de um resultado surpreendente nas eleições europeias desse ano, pouco demorou a levar os ‘indignados’ dos acampamentos em praças das cidades espanholas até às mais altas esferas do poder. Hoje o seu partido controla quatro ministérios naquele que é o primeiro Executivo de coligação da história democrática de Espanha.

Com o país assolado pela pandemia e a direita mais agressiva a cada dia, Iglesias empenha-se em mostrar que a ideologia não o afasta dos empresários, desde que sejam patriotas, por contraponto aos que aproveitam paraísos fiscais. Defende também que ninguém, nem um antigo monarca sob suspeita, pode estar acima da investigação e do apuramento da verdade.

No corpo principal da entrevista, que sai na edição semanal do Expresso de 23 de maio de 2020, o político espanhol assume que o Governo de que faz parte cometeu erros na gestão da crise do coronavírus, ao mesmo tempo que lastima a diferença de atitude entre a oposição espanhola e a portuguesa. Iglesias fala também do papel da União Europeia na recuperação económica do continente e do próprio futuro do projeto europeu.

Vários ministros do Podemos no Governo espanhol provêm do Partido Comunista, entre eles o senhor e a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz. Como é a sua relação com o patronato?

A primeira coisa que este Governo fez foi assinar um acordo com os sindicatos e com o patronato para aumentar o salário mínimo. Nas últimas semanas também chegámos a acordos, por exemplo, sobre o lay-off. Yolanda Díaz é exemplo de que se pode dialogar com todos sem nunca esquecer quem defendemos. Estamos num contexto em que é necessário tecer alianças com o empresariado patriótico que cuida dos trabalhadores e que paga os seus impostos em Espanha, frente aos fundos-abutre e às multinacionais exploradoras que precarizam o emprego e levam a nossa riqueza para paraísos fiscais.

Acusam-no de acalentar as críticas contra a Coroa, após terem sido divulgados os negócios privados do rei emérito. É a favor de que se investigue Juan Carlos I?

A corrupção deve ser sempre investigada, atinja quem atingir, especialmente se afetar uma instituição tão importante como a chefia do Estado. Todos os cidadãos devem ser iguais perante a lei. A impunidade não é compatível com a democracia.

Com a III Assembleia Cidadã do Podemos adiada devido à pandemia, esperam críticas internas à vossa gestão no Executivo?

Creio que as pessoas estão conscientes do peso que temos no Governo e de que, apesar de tudo, o nosso papel está a servir para que esta crise seja enfrentada de maneira diametralmente oposta à forma como se geriu a crise de 2008.

É partidário de um referendo para escolher entre República ou Monarquia?

A base da democracia é a soberania popular. Mais tarde ou mais cedo, as pessoas em Espanha exercerão os seus direitos soberanos e decidirão se querem que a Chefia do Estado seja eleita por fecundação ou pelo voto democrático de todos os cidadãos. E, além disso, creio que estamos num momento em que vão ser os valores republicanos, a defesa do comum, do público, da res publica, que nos permitirão avançar.