23h, 31 de janeiro de 2020. O fim do início
31.01.2020 às 23h00
Em noite de ‘Brexit’, um jornalista apaixonado pelo Reino Unido tenta olhar desapaixonadamente para os horizontes cruzados do Estado-membro que sai e da União por ele deixada. As 23 horas de 31 de janeiro de 2020 não foram um fim definitivo
Tiago Pereira Santos
Durante três anos e meio ouvimos um lado ansiar pelo futuro radioso e outro anunciar a catástrofe. Assistimos a manobras e muito jogo de cintura de ambas as fações, uma esperando reverter o resultado do referendo através de um regresso às urnas que nunca teve grandes pernas para andar, outra digladiando-se entre apoiantes da saída dura e partidários da suave. Vimos cair dois primeiros-ministros mais uns líderes partidários e até forças políticas, discutimos a fronteira da Irlanda e a independência da Escócia.
Aprendemos palavras como backstop, leaver, remainer, além do ‘Brexit’, que hoje parece mentira que alguma vez não tenha feito parte do léxico de um jornalista ou político. Os mais obcecados com o assunto, por imperativo profissional ou paixão política, divertimo-nos com derivações como frontstop, releaver ou remoaner, Brino, Brexit fatigue ou até Brejoin. Fizemos caso, pela primeira vez, do speaker da Câmara dos Comuns e gritámos “Ooordeeeeeeeeer!” a imitar o inimitável John Bercow.
Chegados ao dia D (digo, ao dia B), é impossível negar a importância histórica do momento vivido às 23 horas deste dia 31 de janeiro de 2020. O Reino Unido deixou de fazer parte da União Europeia, ao fim de 47 anos e um mês. A decisão é inédita entre Estados-membros, embora já tivessem saído da união territórios como a Argélia (que deixou de ser francesa), Saint-Barthélemy (arquipélago caribenho que continua gaulês) e a Gronelândia, que permanece dinamarquesa. Nenhum teve, é óbvio, dimensão e simbolismo comparável ao do ‘Brexit’.
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