Projetos Expresso

"A tecnologia é um dos parceiros na redução de emissões, mas há outros"

23 fevereiro 2021 16:23

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

João Moleira, jornalista da SIC, conduziu mais um debate do projeto 50 para 2050 que contou com Gonçalo Lobo Xavier, da APED; Alexandre Marvão, da Deco Proteste e Miguel da Paiva Gomes, da TAP (na imagem, da esquerda para a direita)

Projetos Expresso. Outros parceiros na redução de emissões? Urbanismo e planeamento das cidades. No 8º debate digital do projeto “50 para 2050”, iniciativa do Expresso e da BP, o tema foi o impacto da logística e da distribuição na descarbonização

23 fevereiro 2021 16:23

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Os sectores da logística e da distribuição são essenciais para o processo de descarbonização, mas a redução das emissões não passa apenas por intervenções nos transportes de mercadorias e na substituição dos combustíveis. Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED); Miguel de Paiva Gomes, responsável pelo transporte de mercadorias na TAP; e Alexandre Marvão, responsável pela área de mobilidade da Deco Proteste estiveram a discutir este tema no debate desta manhã. Estas foram as principais conclusões.

1. Tecnologias têm de ser economicamente viáveis

  • As transformações na logística e na distribuição não são de agora. Há já vários anos que se trabalha na substituição dos combustíveis fósseis usados nos transportes de mercadorias por outros a partir de electricidade ou, mais recentemente, de hidrogénio. Contudo, estas soluções ainda não foram colocadas em prática. “Já há soluções tecnológicas muito interessantes”, diz Gonçalo Lobo Xavier, como por exemplo, aviões como os Airbus Neo da TAP que “permitem uma redução de 17% nas emissões” ou protótipos de aviões a hidrogénio”, acrescenta Miguel de Paiva Gomes. Aliás, “a Airbus tem previsto um voo de passageiros em 2023 num avião movido a hidrogénio”, repara. Contudo, “falta equilíbrio económico. O custo da operação está longe de ser rentável e é preciso continuar a investigar e ganhar escala”, repara ainda Gonçalo Lobo Xavier.
  • É que, diz Miguel de Paiva Gomes, o objetivo das empresas de transportes de mercadorias (e também de passageiros) não é apenas o de reduzir as emissões de CO2. Os novos combustíveis que surgirem têm de ser amigos do ambiente mas também permitir baixar os custos de operação do sector e isso ainda não é possível atualmente. “A maior empresa de transporte marítimo de mercadorias disse esta semana numa entrevista que o custo de operação duplicaria com a introdução de combustíveis renováveis”, conta. Mas “É preciso desenvolver estas tecnologias de forma mais acelerada e mas barata, mas penso que a pandemia é uma oportunidade para escalar a produção de combustíveis amigos do ambiente.”, acrescenta ainda Miguel da Paiva Gomes.
  • Contudo, repara Alexandre Marvão, “a tecnologia é um dos parceiros na redução de emissões, mas há outros”. É o caso do urbanismo e do planeamento das cidades”.

2. Os impactos no consumidor

  • O processo de descarbonização obriga a uma profunda alteração dos comportamentos das empresas, mas também dos consumidores e, por isso, terá impactos financeiros em ambos. “Tem de haver o cuidado para que não haja um aumento dos custos para o consumidor”, diz Alexandre Marvão.
  • De facto, a tecnologia tem de ser capaz de apresentar soluções viáveis para que os custos da sustentabilidade não sejam demasiados elevados para as empresas, porque depois esse aumento teria de ser repercutido no consumidor final. É, por isso, que Gonçalo Lobo Xavier considera que “as empresas precisam de poder recorrer a apoios financeiros, principalmente as pequenas e micro empresas”, que são a maior parte do tecido empresarial português. “Porque esta mudança de comportamento requer investimento”, diz.

3. O que se está a fazer entretanto

  • O objetivo é reduzir as emissões e a a sua pegada ecológica, mas enquanto não há soluções de escala e economicamente viáveis na área dos combustíveis, as empresas de distribuição e logística têm concentrado os seus esforços noutras áreas do negócio, como a gestão de stocks e de frotas, as embalagens e o acondicionamento dentro dos meios de transporte. “Nunca pode haver camiões vazios a circular”, atenta Gonçalo Lobo Xavier.
  • A pandemia trouxe uma gestão eficiente do negócio, principalmente com o crescimento do comércio online que veio alterar muito a logística. Não só porque houve um aumento das entregar urbanas e com distâncias mais curtas, como foi preciso assegurar entregas mais rápidas e, consequentemente, mais stock de produtos e armazéns maiores para os guardar.
  • Além disso, veio aumentar a circulação dos transportes de mercadorias, principalmente os de curta distância, mas, para os três intervenientes, o comércio online - que veio para ficar - pode ser visto como uma oportunidade para ajudar a reduzir as emissões. Porque “com uma logística integrada é possível ajudar a reduzir a pegada ecológica”, diz Miguel de Paiva Gomes. E porque “a logística pode reduzir a mobilidade dos consumidores”, conclui Alexandre Marvão.