O projeto 50 para 2050, uma iniciativa do Expresso e da BP que, desde outubro de 2020, tem organizado debates digitais sobre o tema da descarbonização, está a aproximar-se do fim. Esta terça-feira é o oitavo de dez debates e a discussão será sobre o impacto da logística e da distribuição no processo para atingir a neutralidade carbónica em 2050.
Para isso estarão presentes Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED); António Saraiva, presidente da CIP; Fernando Torres, fundador e CEO da Torrestir; Miguel de Paiva Gomes, respnsável pelo transporte de mercadorias na TAP e ainda Vasco Rodeia Colaço, presidente da DECO.
O tema é considerado relevante tendo em conta que parte significativa das emissões de CO2 dos transportes são provenientes do transporte de mercadorias, ou seja, é um dos sectores onde são precisas mais soluções para reduzir o CO2. O problema é que, enquanto nos transportes privados uma das soluções para baixar as emissões passa por reduzir a circulação, nos transportes de mercadorias, é preciso encontrar formas de minimizar as emissões ao mesmo tempo que se pretende aumentar a circulação e distribuição de todo o tipo de bens. Porque isso contribui para a economia.
Aliás, esse aumento do transporte de mercadorias verificou-se o ano passado por causa da pandemia, não tanto na distribuição e entrega de longo curso, mas sim na de curto e médio curso, nomeadamente de bens alimentares, refeições e outros tipos de bens comprados através do comércio online. Uma tendência que veio para ficar e que poderá aumentar o níveis de emissões de CO2. Ou talvez não. “É uma pressão boa que requer uma adaptação à nova realidade, por exemplo aumenta o transporte, mas as pessoas deslocam-se menos para ir às lojas”, diz Gonçalo Lobo Xavier.
Ora, com ou sem estas dificuldades e com ou sem pandemia e as suas consequências na sociedade e na economia, as metas para o sector dos transportes estão bem definidas no Roteiro para a Descarbonização 2050 (RNC2050) e são para cumprir. Por exemplo, nesse ano, pretende-se atingir uma redução de 98% das emissões nos transportes, parte das quais por alterar os tipos de combustíveis usados. Nos carros privados a aposta tem sido na eletricidade, mas nos transportes de mercadorias esta opção não tem sido considerada a melhor porque a tecnologia ainda não permite que os carros elétricos façam longas distâncias.
Além disso, de acordo com Gonçalo Lobo Xavier, apesar de já haver “bastantes projetos para veículos híbridos e elétricos, eles ainda não são custo-eficiente”. Ainda assim, considera que este “é claramente o caminho” e que há “muita investigação a ser feita na utilização de novos materiais”. Uma delas tem sido no hidrogénio, que parece ser a solução consensual, não só no transporte rodoviário, mas também na aviação e no transporte marítimo.
Nos transportes rodoviários, enquanto não há soluções a eletricidade ou hidrogénio, o Gás Natural Veicular (GNV) tem sido uma opção e há já várias empresas de transportes de mercadorias a usar este combustível. Além disso, ou seja, do uso de combustíveis amigos do ambiente, há outras formas de ajudar a reduzir as emissões e é aqui que entra a logística, havendo, neste sector, várias formas de atuação. Uma delas passa por uma maior repartição modal, ou seja, reduzir o papel da rodovia e “reafirmando o papel do transporte marítimo e fluvial conjugado com o transporte ferroviário”, pode ler-se no RNC2050. Mas aquela em que mais se tem apostado nos últimos anos é a digitalização e aumento da eficiência dos processos logísticos.
Atualmente já é possível controlar todo o processo de forma digital, desde a monitorização dos stocks ou da quantidade de mercadorias que se transporta, passando pelo tipo de embalagem e pela forma como se acondicionam as mercadorias nos carros. Porque a forma como as mercadorias estão acondicionadas e são arrumadas pode ser a diferença entre usar um ou dois camiões, por exemplo. E, à partida, um camião terá menos emissões que dois.