Cultura

Até breve, até já, até sempre: o Expresso nas gravações do último álbum de Carlos do Carmo

9 Janeiro 2021 19:56

Ana Baião

Ana Baião

Fotojornalista

Carlos do Carmo, em estúdio pela última vez, no dia 22 de maio de 2018

Momentos de uma despedida, e de um álbum por sair cuja feitura o Expresso acompanhou em exclusivo. Carlos do Carmo morreu no primeiro dia do novo ano. Tinha 81 anos

9 Janeiro 2021 19:56

Ana Baião

Ana Baião

Fotojornalista

Havia nele um sentido de fim que aparentemente nada tinha de dramático. As partidas de um coração atormentado, irrequieto, foram-no colocando, ao longo dos anos, sobre as mesas frias dos blocos operatórios, à sorte dos médicos. Até aquele final de tarde do dia 22 de maio de 2018, em que mais uma vez entrou em estúdio para gravar, Carlos do Carmo teve vários encontros com a morte, sem que tais experiências o tenham transformado num mártir. Era como vencedor que se apresentava sempre que lembrava esses momentos. Soldado-raso de batalhas ganhas pelos seus deuses-médicos.

Mais do que da morte, Carlos do Carmo tinha medo da decadência. Queria evitar a todo o custo a sobrevida ridícula, a comiseração da plateia. Estava, por isso, preparado para encenar um fim de carreira, sem claudicar ao lamento, ao fado-faduncho que conscientemente evitara toda a vida. Sabendo, contudo, que “não é impunemente que se deixa de cantar”.