Havia nele um sentido de fim que aparentemente nada tinha de dramático. As partidas de um coração atormentado, irrequieto, foram-no colocando, ao longo dos anos, sobre as mesas frias dos blocos operatórios, à sorte dos médicos. Até aquele final de tarde do dia 22 de maio de 2018, em que mais uma vez entrou em estúdio para gravar, Carlos do Carmo teve vários encontros com a morte, sem que tais experiências o tenham transformado num mártir. Era como vencedor que se apresentava sempre que lembrava esses momentos. Soldado-raso de batalhas ganhas pelos seus deuses-médicos.
Mais do que da morte, Carlos do Carmo tinha medo da decadência. Queria evitar a todo o custo a sobrevida ridícula, a comiseração da plateia. Estava, por isso, preparado para encenar um fim de carreira, sem claudicar ao lamento, ao fado-faduncho que conscientemente evitara toda a vida. Sabendo, contudo, que “não é impunemente que se deixa de cantar”.
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