Cultura

40 anos de 'Chico Fininho': “Até 1980, tínhamos estado no banco de trás da História”

18 Julho 2020 23:25

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

Rui Ochôa

Há 40 anos, Rui Veloso e Carlos Tê anunciavam-no ao país, afirmando o rock em português. O disco “Ar de Rock” já não era filho da geração que fez o 25 de Abril, mas dos filhos dela

18 Julho 2020 23:25

Cristina Margato

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Jornalista

Sentados no jardim da casa de Rui Veloso, Francisco Vasconcelos, presidente da Valentim de Carvalho, e o próprio músico recuam no tempo. Revivem as memórias de um momento seminal: o da gravação do primeiro LP de Rui Veloso. “Foi o ‘Ar de Rock’ que nos fez acreditar que era possível fazer música moderna em português”, diz Francisco Vasconcelos. Esta “pedrada no charco”, esta “lufada de ar fresco” — expressões usadas pelos críticos que escreveram sobre o primeiro disco de Rui Veloso, na altura do lançamento, e pelos historiadores de hoje — aconteceu há precisamente 40 anos. Não sendo o primeiro disco de rock em Portugal, “Ar de Rock” foi aquele que afirmou este género em português, sinalizando o despertar de uma nova geração e o início de um novo período na história da música portuguesa. ‘Chico Fininho’, ‘Rapariguinha do Shopping’, ‘Bairro do Oriente’ ou ‘Sei de Uma Camponesa’ sobreviveram até hoje na rádio ou nos concertos de Rui Veloso.

Para o historiador António Araújo, “aquela música significava a afirmação do Norte, do Porto, numa dimensão nacional. O disco nascia fora do eixo Lisboa-Cascais”. O autor do livro “Da Direita à Esquerda — Cultura e Sociedade em Portugal, dos Anos 80 à Atualidade” (Saída de Emergência, 2016) diz que há em “Ar de Rock” uma crítica so­cial muito diferente daquela que era habitual até então: “As letras ou eram coisas de amor muito arre­batadas ou eram ideologicamente carregadas, em defesa dos pobres humilhados e das tragédias so­ciais. Neste disco não se falava do consumo de droga com laivos trágicos nem em termos desculpatórios. Usava-se uma certa ironia não cáustica. Foi mesmo uma lufada de ar fresco, porque as pessoas não estavam habituadas a uma música rock com letras tão criativas e inventivas.” Para António Araújo, este não é um rock de intervenção, algo que já era visto com algum cansaço. “Se calhar, houve um excesso de músicas ao serviço do dramalhão do amor e de conteúdo ideológico óbvio.” Por outro lado, lembra o historiador, Rui Veloso não era visto como um baladeiro de esquerda: “Havia a ideia de que ele era um menino do Porto, sobrinho de Pires Veloso, o militar moderado do centro-direita que tinha posto ordem nos quartéis do Norte e que ficou conhecido como vice-rei do Norte. Ou seja, era uma pessoa muito transversal que soava bem aos betos de Lisboa e do Porto. Rui Veloso também não estava acantonado ideologicamente. Não era um produto de um coletivo, de um partido. Não era o produto de uma clique política, de um grupo, e isso foi muito importante. Dava ideia de uma certa autenticidade. Surge fora de um movimento. Isolado. É um desbravador.” As letras de Carlos Tê gozavam com tipos sociais, algo comum no humor que aparece na mesma década, como é o caso de Herman José, na opinião de António Araújo, mas são já solares. “Já não se está a matar capitalistas.”

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