Crónica

Luxo combina com sandálias ortopédicas

19 fevereiro 2021 15:43

As Birkinstock criadas pelo coletivo de artistas e criativos da marca MSCHF custam entre 35 mil dólares (€29 mil) e 76 mil dólares (€63 mil), dependendo do tamanho dos pés

d.r.

O que liga a Birkenstock à Hermès e a entrada da marca de sandálias ortopédicas no grupo LVMH

19 fevereiro 2021 15:43

Quem se deve estar a rir agora são os turistas ingleses que há anos são alvo de piada generalizada, por se passearam pelo mundo com sandálias ortopédicas nos pés. Idolatradas ou odiadas, as históricas Birkenstock estão a provar que a divisão de opiniões não as impede de escalar o exigente segmento de luxo. Seja por ‘portas travessas’ ou por uma iminente aquisição.

A fusão das sandálias Birkenstock com a icónica Birkin da Hermès valoriza a marca alemã que está a negociar a venda a um fundo de investimento do grupo LVMH

A fusão das sandálias Birkenstock com a icónica Birkin da Hermès valoriza a marca alemã que está a negociar a venda a um fundo de investimento do grupo LVMH

A aproximação da Birkenstock às marcas de moda de luxo não é de agora. Desde o início da década passada que vários designers têm pegado nas sandálias da discórdia para lhes darem o seu cunho pessoal – em 2020 foi a vez da Maison Valentino, por exemplo. O que neste momento põe a Birkenstock no mapa do luxo são dois acontecimentos distintos, mas que coincidem no tempo. Na mesma semana, em fevereiro, é apresentada a Birkinstock (o ‘i’ em vez do ‘e’ não é gralha) e o fundo de investimento do grupo LVMH está a negociar a compra da marca alemã.

Alheio a isto não será o protagonismo do calçado confortável durante o confinamento, o que abre uma janela de oportunidade para marcas como a Birkenstock criarem modelos que, sendo confortáveis, tenham a estética e a aura aspiracional dos produtos de luxo. Não é seguindo este raciocínio, porém, que um coletivo de artistas-ativistas decide criar umas Birkenstock feitas com a pele das carteiras Birkin, da Hermès, à revelia de ambas as marcas e capitalizando a semelhança fonética. O polémico coletivo MSCHF, de Brooklyn (Nova Iorque), pega em duas referências de moda opostas e cria uma coleção com base nas sandálias Arizona (as de duas tiras largas, associadas aos ditos ingleses), que pretende dessacralizar o modelo de carteira criado para a atriz Jane Birkin. Que, a propósito, é a carteira (ou mala) mais cara alguma vez vendida em leilão.

O coletivo de artistas e criativos da marca MSCHF desfez carteiras Birkins verdadeiras para criar as Birkinstock

O coletivo de artistas e criativos da marca MSCHF desfez carteiras Birkins verdadeiras para criar as Birkinstock

Para quem não está familiarizado com os MSCHF, eles já são considerados o Banksy da cultura de consumo, com ações de guerrilha contra empresas que diabolizam (como a Amazon e o Facebook) e a destruição de produtos caros para criarem coisas novas (como os Nike com água benta na sola), que depois põem à venda. Agora, a ‘destruição criativa’ do coletivo, acrónimo de ‘miscellaneuous mischief’ (miscelânea de traquinagens), vai para outro patamar. Quatro Birkins verdadeiras em segunda mão (mais umas quantas falsas para criarem o protótipo) – nas quais os MSCHF gastam 122.500 dólares (€101.551), segundo o ‘New York Times’, são estraçalhadas para darem origem às tiras cosidas sobre as solas Birkenstock, igualmente verdadeiras. A apropriação indevida destas marcas é uma questão que ainda não foi levantada por nenhuma das partes, mas certamente dará origem a processos judiciais.

O rapper Future é um dos compradores divulgados, bem como a cantora Kehlani e um colecionador de arte anónimo

O rapper Future é um dos compradores divulgados, bem como a cantora Kehlani e um colecionador de arte anónimo

A escolha da Birkin é justificada por ser um símbolo de estatuto que, ao ser destruído e transformado em algo acessível, força as pessoas a questionar o simbolismo dos objetos. Passando da teoria ideológica à prática, as Birkinstock são tudo menos acessíveis. Cada par custa entre 35 mil dólares (€29 mil) e 76 mil dólares (€63 mil) - dependendo do tamanho - e é feito por encomenda até a matéria-prima estar esgotada. O preço e a excentricidade criativa justificam o perfil de alguns dos primeiros compradores já divulgados, como o rapper Future, a cantora Kehlani e um colecionador de arte anónimo. Kylie Jenner tem mais sorte (ou visibilidade planetária) e as Birkinstock foram-lhe oferecidas, apanhando boleia da notoriedade nas redes sociais de uma das irmãs Kardashian. Contas feitas, o espírito anti-sistema deste projeto acaba por beneficiar do próprio sistema, com os seus criadores a revelarem-se exímios no marketing e na comunicação.

Kyle Jenner tem mais sorte (ou visibilidade planetária) e as Birkinstock foram-lhe oferecidas

Kyle Jenner tem mais sorte (ou visibilidade planetária) e as Birkinstock foram-lhe oferecidas

Não é por acaso que os MSCHF, mais do que um coletivo artístico, são a marca do momento nas redes sociais, seguindo uma estratégia de apresentação de um novo produto disruptivo, duas segundas-feiras por mês. É fazendo este caminho que elevam agora a fasquia da Birkenstock, mesmo sem a marca alemã se dar como participante na criação. Ainda não está claro, no entanto, se este lançamento poderá ser uma ‘traquinice’ para valorizar a marca alemã, num espírito semelhante ao que levou à subida das ações em Bolsa da GameStop. Na mesma semana em que as Birkinstock são reveladas ao mundo, a Birkenstock deixa ‘transpirar’ a notícia que está a negociar a venda ao L Catterton, fundo de investimento que conta com a participação do LVMH e da própria holding familiar de Bernard Arnault, líder e acionista daquele que é o maior grupo de luxo do mundo.

A apropriação indevida de artigos e a ‘colagem’ a símbolos da Birkenstock e da Hermès certamente darão origem a processos judiciais

A apropriação indevida de artigos e a ‘colagem’ a símbolos da Birkenstock e da Hermès certamente darão origem a processos judiciais

Segundo a Bloomberg, a Birkenstock aponta para uma avaliação da empresa entre €4 mil milhões e €4,5 mil milhões, incluindo a dívida. A L Catterton ainda se encontra em processo de condução dos procedimentos necessários para fechar a proposta, que poderá ser subida face ao ‘fénomeno Birkinstock’. É que associação das sandálias ortopédicas ao coletivo que tem um forte apelo junto dos jovens garante a aproximação a este segmento etário, que é o que mais faz crescer o consumo de luxo. Até à data nenhuma das partes se pronunciou sobre as alegadas negociações e a transação é incerta, estando previsto para os próximos meses um eventual desfecho. Caso a venda se concretize, isso significa a abertura de horizontes para a marca que começa há 247 anos com Johann Birkenstock, um sapateiro de Langen-Bergheim, na Alemanha.

O ponto de partida para o calçado ortopédico acontece com um dos seus descendentes, Konrad Birkenstock, que cria e comercializa as primeiras palmilhas flexíveis, em 1896. A invenção das palmilhas com o molde do pé e espaços para os dedos, que caracterizam as Birkenstock, essa, só se dá em 1930 e decorre de estudos e testes até chegar a um formato que melhor respeite a anatomia e o conforto. O resultado são umas palmilhas forradas a camurça, com espuma de amortecimento, camadas de cortiça, juta e látex, colocadas sobre uma sola de borracha. É a partir desta invenção que a Birkenstock faz a história do calçado ortopédico, vendendo cerca de 24 milhões de pares, em 2019. Dois anos antes já tinha aplicado o conhecimento técnico na criação de uma linha de camas, estrados e colchões, igualmente ortopédicos. Resta saber se os turistas ingleses não irão questionar a derivação luxuosa de um símbolo de conforto despretensioso.

Birkenstock/Birkinstock

https://www.birkenstock.com/pt-en

https://birkinstock.shoes/

https://mschf.xyz/