Crónica

Covid-19. Sai o fato à medida, entra o fato de treino?

O desfile masculino da Hèrmes acontece ao vivo e sem audiência, num formato comum às apresentações outono/inverno 2021, na Semana de Moda de Paris

Mathieu Raffard&Mathilde Roussel

A Paris Fashion Week Men, o desfile masculino da Hèrmes e a adaptação da alfaiataria de Savile Row ao confinamento dão o mote à crónica ‘Sem Preço’ desta semana

29 Janeiro 2021 12:26

Com a renovação do estado de emergência, até 14 de fevereiro, mantém-se estacionada nos roupeiros a chamada roupa de trabalho e para eventos sociais. Curiosamente é nesta mesma época, em que os períodos de confinamento se colam uns aos outros, que está a acontecer a Semana de Moda de Paris, com as coleções para o próximo outono/inverno. Muito já se tem escrito sobre a mudança evidente nas opções de indumentária, quando a ordem é para ficar e trabalhar em casa. Os hábitos de vestuário masculino, neste contexto, são aqueles que estão sujeitos a uma flutuação mais radical.

O ‘fique em casa’ pede calças largas com cintura elástica, que são uma das tendências mais evidentes

O ‘fique em casa’ pede calças largas com cintura elástica, que são uma das tendências mais evidentes

Armando Grillo

Seja pela maior variedade de opções ou pelas características menos rígidas, o guarda-roupa feminino transita mais facilmente para diferentes registos e contextos. As opções masculinas, nem tanto. Dividem-se, na base, em dois grupos dificilmente misturáveis: fatos formais e roupa desportiva. É neste cenário que as novas coleções de pronto-a-vestir para homem se apresentam em Paris (em formato digital, pela segunda vez), entre 19 e 24 de janeiro. Roupas para enfrentar os ambientes exteriores (baixas temperaturas e chuva) e peças confortáveis para estar em casa são as duas grandes linhas que marcam as propostas apresentadas para a estação fria de 2021/22.

É na véspera da Paris Fashion Week Men ser dada como encerrada, no sábado 23 de janeiro, que a Hèrmes mostra ao mundo a sua visão sobre o que os homens precisam de ter no roupeiro, no próximo inverno. A marca francesa fundada em 1837 acompanha o espírito do momento, não só no tipo de vestuário proposto como no formato de apresentação. Em linha com os restantes criadores presentes na Semana de Paris, Véronique Nichanian, diretora artística das coleções masculinas da Hèrmes, declina o seu trabalho num desfile ao vivo, sem audiência e em direto, replicado na íntegra num vídeo disponível, posteriormente, no site e em redes sociais, como o YouTube, por exemplo.

Sacos de mão e botas em pele são alguns dos acessórios que se adaptam às eventuais deslocações e idas à rua

Sacos de mão e botas em pele são alguns dos acessórios que se adaptam às eventuais deslocações e idas à rua

Filippo Fior

Com esta apresentação (denominada ‘Interior/Exterior/Dia’) estreio-me nas semanas de moda virtuais. Acompanhei durante vários anos as versões físicas, em Paris, Londres, Milão e Nova Iorque, onde a conexão com personalidades de referência da indústria da moda e do luxo e a atmosfera - durante e pós-desfiles - são (ou eram) parte integrante destes eventos. Confesso que transformar o calor da interação presencial na frieza das tecnologias é uma perspetiva que, à partida, me soa a algo de redutor. Mas contra o facto de uma pandemia mundial, não há argumentos. A experiência de um desfile virtual, afinal, até cumpre plenamente o propósito, pelo menos do ponto de vista jornalístico. Isto se o objetivo se resumir apenas a conhecer a visão do estilista e as respetivas peças, tecidos e cores que propõe.

Perde-se a atmosfera e o ambiente humano, fundamental em reportagem, mas ganha-se um foco maior e mais detalhado na coleção que está a ser apresentada. No caso do desfile da Hèrmes, a emissão é feita com cinco câmaras, cada uma delas visível no ecrã em mosaico e com um ponto de vista diferente. Ao longo dos cerca de oito minutos e meio de duração, é possível ir selecionando a câmara que se pretende ver na janela principal. No final fica disponível o vídeo, mas já sem a possibilidade de mudar de ponto de vista. Nos desfiles físicos, alguns jornalistas têm o privilégio de serem sentados entre a primeira e a segunda fila, mas outros tantos são recambiados para localizações com visibilidade reduzida. No digital, não só é possível ver de perto cada manequim e as respetivas roupas, como andar para a frente e para trás no vídeo e esmiuçar todos os detalhes, infinitas vezes.

Vislumbram-se pequenos lenços de pescoço, mas não há sinais da formalidade das gravatas

Vislumbram-se pequenos lenços de pescoço, mas não há sinais da formalidade das gravatas

Armando Grillo

A apresentação da Hèrmes acontece em direto a partir do Mobilier National, instituição fundada em 1604 que se dedica à preservação de peças de mobiliário e têxteis. Começa e vai fluindo com o sobe e desce na escadaria em espiral, no interior do edifício projetado por Auguste Perret, desaguando no pátio exterior, onde os cerca de 30 manequins se reúnem no final. Apesar de a Hèrmes ter um histórico masculino associado a gravatas, desde os anos 1940, no desfile não há sombra de tal peça. Vislumbram-se apenas pequenos lenços de pescoço quadrados, em caxemira e seda, que são uma reinvenção do histórico modelo Carré. Camisolas confortáveis em lã compacta ou caxemira - com capuz, decote redondo, gola alta ou gola subida com fecho - combinam-se com calças largas em flanela de lã com cintura elástica ou em formato trapézio, por exemplo.

Tons sóbrios misturados com cores luminosas estão na base da coleção, que estará à venda na loja de Lisboa e no site oficial da Hèrmes a partir do fim de agosto

Tons sóbrios misturados com cores luminosas estão na base da coleção, que estará à venda na loja de Lisboa e no site oficial da Hèrmes a partir do fim de agosto

Fillipo Fior

Os agasalhos variam entre parkas com capuz em materiais repelentes de água, blusões e casacos com fechos ou botões, em pele de veado, cordeiro e ou bezerro, por exemplo. Sem surpresas, as formas e os tecidos procuram adequar-se à vida em casa, com as pontuais idas à rua, enquanto as cores acompanham o espírito do Pantone Cor do Ano 2021, que, na verdade, é composto por duas cores: cinzento (como o presente) e amarelo luminoso (como se quer o futuro). Verónique Nichanian explica que começa a coleção com base nos ‘falsos negros’ e nos tons sóbrios (visíveis nas calças) e que acaba por a estender às cores luminosas (malhas, camisas e casacos). Em termos de calçado e acessórios, o assunto fica arrumado com ténis (ou sapatilhas) em malha e pele de bezerro, botas, sacos de mão em pele e tweed tartã, pendentes, pulseiras e anéis em metal, entre outros.

Se para as marcas luxo de pronto-a-vestir a adaptação ao confinamento é relativamente fácil, o mesmo não se pode dizer sobre a alfaiataria, em particular no epicentro que é a referência deste universo, Savile Row, em Londres. A ausência de eventos sociais, o teletrabalho e as limitações nos voos internacionais (um terço do negócio em Savile Row vem de clientes nos Estados Unidos e a Ásia é um mercado crescente) são a combinação perfeita para debilitar os alfaiates ‘bespoke’, aqueles que, a partir do desenho e corte à mão, criam fatos de raiz tal como são pedidos pelos clientes. A este contexto somam-se outros desafios que já vinham de trás, como a subida das rendas das lojas e o embate das consequências do Brexit, num negócio cuja base é a exportação.

Os alfaiates de Savile Row enfrentam a quebra na procura de fatos ‘bespoke’, com a ausência de eventos sociais e o teletrabalho

Os alfaiates de Savile Row enfrentam a quebra na procura de fatos ‘bespoke’, com a ausência de eventos sociais e o teletrabalho

D.R.

Por enquanto não há relatos de desaparecimento definitivo de nenhuma das alfaiatarias, muitas delas instaladas em Savile Row desde o século 19. Nesta artéria em Mayfair, no entanto, está anunciada para final de janeiro a saída da Abercombrie&Fitch, cuja entrada é contestada, em 2012, pela associação local que defende a preservação da rua enquanto destino exclusivo de lojas com o serviço ‘bespoke’ – mais artesanal e exclusivo do que o ‘à medida’, em que se ajustam moldes ou fatos previamente existentes. Outra das diferenças é o preço substancialmente superior nos fatos ‘bespoke’, que podem custar a partir de cerca de €6.500 e ascender a €35 mil, dependendo dos tecidos e materiais utilizados.

Curiosamente são os mesmos alfaiates que defendem a preservação da tradição que, com o coronavírus, não têm outro remédio a não ser renderem-se à evolução dos tempos e às tecnologias. A aposta em coleções de pronto-a-vestir, no comércio eletrónico e no atendimento por Zoom são o caminho que Savile Row segue para contornar o fecho das lojas físicas e apanhar boleia da corrida ao vestuário casual. Há quem vá mais longe nas tecnologias, para manter virtualmente o serviço ‘bespoke’, quando 70% deste negócio depende dos périplos dos alfaiates pelo mundo, impossíveis com as fronteiras fechadas. Desde o segundo confinamento, a Hunstman recorre a um robô comandado por computador e com câmara de filmar e intercomunicador, para tirar medidas à distância, satisfazendo aqueles que não trocam o fato completo pela informalidade.

Desde o segundo confinamento que a Huntsman recorre a um robô para tirar as medidas à distância, satisfazendo os clientes que não abdicam do fato completo

Desde o segundo confinamento que a Huntsman recorre a um robô para tirar as medidas à distância, satisfazendo os clientes que não abdicam do fato completo

D.R.

Na edição de 21 de janeiro, o ‘The Wall Street Journal’, dá conta de uma minoria de norte-americanos (ligados à área financeira e corporativa) que se recusa a descurar na apresentação, mesmo quando o mais longe que vão é até ao computador, para se ligarem ao Zoom. Defendem (e praticam) a manutenção de um certo nível de decoro em teletrabalho, continuando a optar por blazers, calças formais, camisa e gravata, sem sequer sucumbirem aos chinelos nem às pantufas. A fidelidade ao vestuário formal é, para estes, uma coerência de princípios, uma extensão da personalidade e, até mesmo, parte da persona profissional. Em confinamento, por outro lado, optar por vestir os fatos usados nas idas ao escritório, mesmo que seja para ficar a trabalhar no sofá de casa, é uma forma de estruturar a rotina diária. Distingue-se o período de trabalho dos momentos pessoais e de lazer, a sanidade mental agradece e há espaço para o fato de treino.

Hèrmes

Largo do Chiado 9, Lisboa

2ª feira a sábado, das 10h30 às 19h30 (sujeito a restrições pandémicas)

213 242 070

lisbonne@hermes.com

https://www.youtube.com/watch?v=xi6PMJiHOwc (desfile)

https://www.hermes.com/pt/en/