Era Quarta-Feira de Cinzas. A Mariana chegou ao aeroporto de Lisboa pela manhã, e pouco depois já subia as escadas da nossa casa. Lembro-me claramente da primeira coisa que me disse e da expressão que tinha: “Mãe, não te vou dar um beijo... por causa da avó.” A minha filha de 15 anos acabava de voltar de Roma, uma viagem há muito sonhada, e já vinha informada do dano que poderia causar aos outros, nomeadamente aos mais velhos. Não tinha consciência clara da gravidade da situação, mesmo que a partida dela tenha sido pautada por avisos de cuidado redobrado. O medo do vírus andava no ar; e, se sabíamos que já não haveria Carnaval em Veneza e que a situação era grave, ainda não estava ao nosso alcance imaginar o que iria acontecer nos dias seguintes em Itália, a forma como isso também mudaria a nossa vida. Não éramos então capazes de prever a extensão dos acontecimentos. E foi talvez por isso que a minha filha adolescente, grande apreciadora da escola, não encarou com contrariedade a obrigação de ficar em casa. Muitos outros terão pensado o mesmo. Em breve, começariam os testes do final do segundo período. Ficar em casa significava estender o tempo para estudar, aliviar a tensão, descontrair. Ter horas de lazer. Se houve uma preocupação inicial, foi apenas sobre o verão: “Achas que vou ter aulas nas férias?”
Na verdade, na escola da Mariana, os alunos propuseram o confinamento aos professores antes mesmo de ele ser oficialmente decretado. “A ideia foi lançada no grupo de WhatsApp”, conta Inês Marques, 16 anos, sua colega e delegada de turma: “Houve alunos que começaram a fazer isolamento antes, por terem tido contacto com pessoas infetadas. Entretanto, houve aquela decisão [sobre o encerramento das escolas], na quarta-feira, que acabou por ser adiada. Nesse dia, já havia muito descontentamento por parte dos alunos, que se estavam a sentir inseguros. Tínhamos expectativas de entrar em quarentena. Muitos começaram a dizer que não iam à escola. Percebi que era preciso avisar os professores...” Na sexta-feira, já poucos foram à escola. Os delegados de turma anunciaram aos professores que os alunos ficariam em casa. Madalena Rosa, 15 anos, foi à escola, consciente de que não voltaria nos próximos 15 dias: “Fui despedir-me dos amigos.” Os professores responderam, dias depois, por e-mail, dizendo que as faltas dos nossos filhos seriam justificadas.
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