Medicamento que Trump diz que está a tomar para prevenir a covid-19 pode aumentar risco de morte nos pacientes com o novo coronavírus
22.05.2020 às 17h41
GEORGE FREY/Getty
Um estudo publicado na revista de investigação médica "The Lancet" mostra que a toma de cloroquina e hidroxicloroquina pode estar associada a uma taxa de mortalidade superior nos pacientes com sintomas graves de covid-19
Há dois medicamentos que estão a ser alvo de particular atenção desde que a pandemia se tornou uma preocupação de todos os governos no mundo: cloroquina e hidroxicloroquina, medicamentos utilizados no tratamento da malária cujo sucesso na prevenção da covid-19 não está sustentada por estudos científicos revistos por outros cientistas ou publicados em revistas da especialidade.
Depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter dito que estava a tomar hidroxicloroquina, a curiosidade sobre este medicamento aumentou, apesar de as autoridades de saúde pública já terem referido que este não é um procedimento adequado ou recomendável. Esta sexta-feira, um artigo da revista “Lancet” parece vir dar razão aos céticos e o alerta é ainda mais grave: em casos graves de covid-19, a administração de qualquer um destes medicamentos piorou a condição física dos doentes, provocando até a morte em alguns casos, de acordo com os investigadores.
A amostra de análise é significativa: 96.000 pacientes de 671 hospitais. Todos estiveram hospitalizados entre fins de dezembro e meados de abril e cerca de 15 mil foram tratados com estes dois medicamentos antimalária, ou com um deles combinado com um antibiótico.
Estes tratamentos, fica provado no estudo, estão associados a um maior risco de morte. Um em cada seis pacientes submetidos a tratamentos com cloroquina e hidroxicloroquina (sem antibiótico) morreram, enquanto no grupo que não tomou os medicamentos as mortes são de 1 em 11. Entre os que estiveram a tomar cloroquina e antibiótico, esse rácio passa para 1 em cada 5 e quase 1 em 4 tratados com hidroxicloroquina em conjunto com um antibiótico morreram.
"Estudos anteriores em pequena escala não conseguiram identificar provas robustas do benefício destes medicamentos. O que sabemos agora, depois deste nosso estudo, é que as possibilidades de que um paciente melhore depois de os tomar são muito reduzidas”, disse, citado pela CNN, Frank Ruschitzka, diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Universitário de Zurique e co-autor do estudo.
Este estudo mostra também que as arritmias cardíacas graves foram mais comuns entre os pacientes que receberam qualquer um dos quatro tratamentos. O maior aumento foi entre o grupo tratado com hidroxicloroquina e um antibiótico - 8% desses pacientes desenvolveram arritmia cardíaca, em comparação com 0,3% do grupo de 81 mil pessoas que não foi submetido a qualquer tratamento com estas substâncias.