Coronavírus

“E se nunca mais lhe toco?” O novo drama de quem não pode ver os familiares mais velhos

17.05.2020 às 15h36

Com os pais nos lares ou sozinhos em casa, as famílias atormentam-se com esta distância física para a qual não veem fim e trocam afetos através de janelas e ecrãs. As demências podem-se agravar

Ana Margarida Germano não vê a mãe desde o dia 9 de março. Nos últimos dois meses, a fisioterapeuta de 31 anos perdeu a ligação com a pessoa mais importante da sua vida: “Desde que o meu pai morreu, há 11 anos, que vivíamos uma para a outra.” A mãe, São, tem 77 anos. É asmática, sofre de doença renal, faz diálise e é portadora de demência [Corpos de Lewy]. Por ter acamado, em dezembro do ano passado, durante um internamento hospitalar, a mãe de Ana passou a residir num lar para a terceira idade. Apesar de São viver em estado de confusão mental, e de essa condição proporcionar a Ana um quotidiano cheio de sobressaltos, a filha conta que a mãe nunca a deixou de reconhecer: “Conheceu-me sempre, embora, às vezes, falasse em mim e na minha irmã [Ana nunca teve irmã ou irmão].” Após a alta do hospital, a filha passou a visitar a mãe durante a semana, e aos domingos, conseguia reunir a família no lar: “Numa dessas visitas, veio a família da província. Juntaram-se os cinco irmãos e a minha mãe conseguiu reconhecê-los a todos.” Hoje, um dos seus maiores receios é que a demência evolua e a mãe se esqueça dela.

A pandemia e o sucessivo confinamento cortaram a possibilidade de relacionamento entre a mãe e a filha. São perdeu os estímulos afetivos da sua querida Ana e daqueles que lhe eram mais próximos. Mas também os estímulos físicos que a filha lhe proporcionava, durante as visitas, enquanto fisioterapeuta: “Antes do dia 9 de março, mobilizava-a sempre que a visitava. A muito custo, a minha mãe ainda dava uns passinhos. Agora, sem ajuda, e com o pessoal reduzido, duvido que o consiga. Devem mudá-la da cama para o cadeirão, mas é inevitável que esteja mais parada. Nunca mais vai andar.” Desde que a pandemia começou, Ana conseguiu contactar com a mãe apenas uma vez, e foi através de uma videoconferência, proporcionada, a título pessoal, por uma das funcionárias. Para se sossegar, a filha telefona todos os dias para as equipas de diálise e do lar. “Sei que está tudo bem a nível vital.” Falta-lhe o abraço: “E se nunca mais lhe toco?”

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